quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Partida


Este bilhete, carta, ou seja lá como queira chamar um pedaço de papel rabiscado, contém em cada linha vazia toda a dor que jorra do meu peito. Eu poderia te escrever sobre as entranhas rasgadas, o sangue escorrido no carpete, o choro desesperado de minhas artérias. Mas meus dedos se negam a frieza. Minhas palavras se recusam à desistência. Eu poderia inventar neste papel histórias mirabolantes, dizer casualmente e impessoalmente que sua chegada não me causa taquicardia. Deixaria o papel dobrado em cima de sua mesa e partiria sem deixar nada para trás além de um coração doído.
Havia lido em algum lugar que era chegadas e partidas. Pois isso é o que sempre fui. Sentia-me uma estação. Talvez algo menor, um ponto de ônibus. Eu não marcava ninguém, mas todos que passavam deixavam suas pegadas dentro de mim. Tua diferença é que não partiu inteiramente como todos os outros. Tu vens, e me marca, rasga, parte ao meio. E vais embora. Eu quis te marcar, cravar-me em tua pele e perder-me em teu furacão. Mas não me permites. Tu me atira ao chão e foge dos meus afagos. Nega meu afeto com um aperto de mão que mais parece uma adaga nas vísceras. 
Perdoe-me por não ser poeta nestas mal traçadas linhas repletas de pesar. Pesar de tristeza, de peso, de todos os significados que contém nas palavras e entrelinhas. Eu não sei falar sobre o escarro. Enfiar o dedo na garganta e vomitar gosma verde com toda a crueldade da alma. Não fui feita para fazer um buraco no peito e espremer o coração até esvair a última gota de sonho. No fundo, não passo de uma filha da puta que procura a beleza em todas as rachaduras. Eu engulo tristezas e guardo-as numa espécie de caixa de Pandora dentro do peito. Por vezes, tranco-me no quarto e faço da solidão minha companhia, mas não as deixo fugir. E não serás tu que libertará toda a crueldade com gosto de fel que a vida me obrigara a mastigar. 
Eu não falo sobre o amor por ele estar implícito em tanto sofrer. Não escrevo que te amo pois sabes que meu coração bate junto do teu. Não ponho nesta carta teu nome ao lado da palavra carinho pois senão rasgarei estas palavras e te esperarei entre as poesias que dividimos em silêncio. Deveria ter apenas dito-lhe um adeus somado ao não-me-procure jamais. Avisá-lo como mulher adulta, mas tu bem sabes minha alma de menina. Derreto entre murmúrios e estendo esta carta para que apareça na porta à tempo de me impedir.
Essa não é uma carta de despedida, ouso admitir. É um desabafo desesperado para que você, por favor, jamais desista de mim. Irromperei por esta porta e esperarei que corra pela rua até que me encontre e me arraste com você perguntando o que diabos eu tenho na cabeça, enquanto engulo a vontade de chorar aliviada por ter me buscado. Só quis causar-lhe o medo que tenho todas as manhãs quando me vejo sem você e pergunto-me se voltará até o anoitecer. Vais nomear-me louca, disso não tenho a menor dúvida. Talvez até pense realmente em deixar-me. Mas não o fará. Estás tão enredado em minhas teias quanto eu nas tuas.
Peço desde já perdão, meu amor, por tamanha prova à tua sanidade. 
Não te esqueças: O pulsar do coração se acelera quando a chegada se aproxima.
Te espero às 19h em ponto para o jantar.

domingo, 28 de outubro de 2012

Sobre Esperas e Canções

Horas correram livremente e nada de você chegar. Cá estou, enrolada em cobertas enquanto ouço músicas tristes de Chico e resmungo graças por não te ver. Meus olhos viajam de relance até a porta sem que meus pensamentos irritados percebam que eles sentem falta da cor dos seus olhos. Meus ouvidos estão ocupados transformando qualquer ruído em passos caminhando pelo assoalho e mãos balançando chaves. Não faz sentido toda essa atuação de que não preciso de ninguém se você não está. As coisas tornam-se diferentes quando sua presença preenche todo o espaço da minha atenção e faz minha resolução virar poeira por me lembrar que é tudo tão fácil de arquitetar quando está longe, mas quando vem não passo de uma apaixonada desesperada por uma pitada de atenção. Mas mantenho-me firme. Cheguei até aqui, e aqui permanecerei. Finjo prestar atenção à melodia e não nos sons da rua. Ouço os acordes da próxima canção e penso que tudo não passa de uma grande farsa. A música, a espera, o interesse mal disfarçado. É claro que eu quero ver-te na porta com um buquê de rosas apesar de preferir uma caixa de doces. Sequer precisaria pedir desculpa - com sua teimosia, temo que jamais a receberia antes do próximo solstício. Sua presença já me bastaria pelo resto do inverno e toda a primavera. Você chegaria, faria sua cara de desentendido e pediria músicas mais alegres. Eu não gostaria de mudar o cantor, mas faria para mantê-lo por perto. Porque desde que vieste transformei-me em uma viciada em carinho que tratamento algum cura, e quando não estás viro uma mendiga, vasculhando em todos os bueiros lembrança para deleitar-me em sua ausência. Quem assistir nossa dramaturgia pensará que não é para tanto, há tantos outros mais gentis e parecidos com meus sonhos de mulher que é insano persistir em quem já não sabe se me quer como certeza de calor ou lembrança antiga. A realidade é que, veja bem, os outros são mais, mas não são você. Não é só você. É você! Me entende? Você é só um homem, que me dá ganas de ser sua mulher. Então eu te espero, faço escândalo e uma atuação patética quando me dá na telha apenas para ver seu olhar preocupado e sua voz calma como se esperasse que a qualquer momento eu pulasse a janela e desaparecesse com o vento. Meu orgulho faz meus lábios ameaçarem a ir embora e meu coração deixa você usá-lo como bem entende, destroçando meus neurônios em um jogo de gato e rato que eu já perdi faz tempo. Estou aqui, sozinha e com os cabelos desgrenhados em plena tarde chuvosa, com as mãos descobertas e frias, esperando seus dedos segurá-las e esquentar das minhas unhas roídas à minha alma. E continuo aqui, esperando com meu olhar zangado para que você faça cara de deboche e venha dividir essa coberta tão sem graça sem você. Porque apesar de confuso, você sempre foi meu, sorri comigo quando sente meu pulso acelerado e nos guarda em um lugar do coração em que só eu tenho a chave. Eu sei que você quer abrir essa porta tanto quanto eu quero escancará-la e te encontrar encostado no portão dizendo que não sei esperar. Então pare de atuar você também, e venha logo, que a música já está acabando e quero pedir um beijo antes do acorde final.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

(A dor) De todos os Lados


O telefone toca e desejo que seja você com mais uma saudação que antecede grandes planos. Não passa de uma atendente de telemarketing me oferecendo um plano “imperdível”. Engulo a frustração e rejeito. Atender esperando ouvir aquela voz que me arrepia a nuca mas escutar a voz fina de uma desconhecida tentando pagar as contas não é lá uma experiência agradável para a taquicardia. Em uma crise de mulher louca, quase mando a pobre coitada parar de falar porque estou esperando uma ligação que nem sei se receberei. Veja bem, você nem falou nada envolvendo telefonemas, como sempre. E mesmo assim espero ouvir tua voz, como sempre. Você não sabe, mas espero encontrar um pedaço seu em cada canto dessa cidade oca. Eu juro que também não entendo! Quer dizer, num dia estamos esparramados na cadeira de um bar conversando amenidades, e no outro me vejo procurando o livro só porque havia dito que a personagem despertava em você as mesmas sensações que eu.
Você está bem onde imaginei que estaria. Sentado num banco gasto, olhando o sol nascer. Te observo de longe. Enxergo um menino no corpo de um homem completo. Sinto o medo ao redor dos teus olhos escuros, ou seriam os reflexos do meu? Meus pés estão lutando contra a razão para caminharem até você. Eles sabem que meu lugar é ao teu lado, nessas viradas noturnas. Ou pensei que era. Eu só queria me desculpar. Pelo quê, não sei bem. Quis perguntar se estava perdido, mas a verdade é que a alma perdida era eu. Você apenas estava no lugar errado na hora errada e tropeçou do maior erro dessa cidade grande: eu. Ingênuo como é, nunca imaginaria que havia uma bomba relógio contando seus passos enquanto dialogava sobre o futuro bonito que planejava. Finalmente acreditando existir beleza na vida, quase corria para te acompanhar. Troquei a maquiagem pelo suor e os saltos pelos tênis de corrida para conseguir estar aonde você estivesse. Joguei fora os livros de auto ajuda e preenchi as estantes com felicidade para que você viesse. Até reservei um lugar especial para teus rascunhos na cabeceira da minha cama! Eu me refiz inteira para você me achar bonita como a vida passou a ser depois daquele passeio no meio da noite.
Disseste que não lhe escrevia. Mentira. Eu escrevia sobre falsas verdades e partidas até conhecer teu riso manso. Passei a achar que tudo em você era manso. O riso, o sorriso, a fala. Tua voz fazia meu coração manso. Os rascunhos antigos foram largados numa caixa qualquer no sótão empoeirado. Agora, estou aqui, patética, esperando ligações que jamais serão feitas, olhando de longe seus cabelos bagunçados que nunca mais arrumarei enquanto descansa o rosto no meu ombro. Eu só pensei que fosse você, entende? Quero dizer, eu sabia que era você! Você, com teu ar debochado, a camisa gasta, o afago doce. Chorava e rogava para que fosse você. Porque nenhum abraço era melhor que o seu nos dias de trovão e nenhuma palavra era mais bonita que as tuas, cúmplice dos meus ouvidos. Era você e ponto final. Você não retornou a chamada, não respondeu as cartas. Você tirou o telefone do gancho e rasgou meu nome dos teus livros. Eu prometi parar de te procurar, morrer para e por você. Bastaria dizer as palavras definitivas e te deixaria em paz. Nenhum barulho doeu tanto quanto o da porta que fechou ao me deixar.

Moço de Mil Faces

Quem és tu? Serás aquilo que vejo ou és o que faço questão de ignorar por temer repudiá-lo? Aqueles gestos eram teus ou de um teu entre tantos outros que lhe dividem os humores? As palavras saíram de teus lábios ou de uma de tuas mil faces? E este amor que destino à ti, é de um ou de todos? Admiro-o com os olhos fechados, e nesse momento, passas a ser guardião de milhares - como uma gaveta, guardando dezenas de cartas de um só destinatário. Ao escancarar as pálpebras, desatar as pupilas, vejo rostos e ações de seres distintos num só corpo. Me fascinam, me encantam, me amedrontam. Pergunto-me por qual destes seres meu corpo congela, qual toque anseio. Seria o ranzinza, com o cenho franzido e olhar de moço sério e indiferente? Encanta-me. Seria o amoroso, com cafuné tranquilizador e braços macios? Encanta-me. Seria o conquistador, com sorriso arrogante e camisa desalinhada após longo beijo? Encanta-me. Encantam-me. Se tiveres mil faces, por mil serei eternamente apaixonada. Com seus trejeitos, afetos e contradições, encantam-me. Olhar teu rosto pálido na escuridão, os cabelos bagunçados e a camisa amassada por tantos abraços que dei-lhe enquanto repousavas, só me fazia sussurrar ao pé do ouvido: Encanta-me. Tens faces diversas. Tens crueldade em sua sobrancelha cética erguida e doçura em seu olhar de menino inocente. Tens descaso nos lábios apertados e graça no riso que tentas - sem sorte - reprimir. Tens a alma de mil mundos entrelaçada num corpo só. Tens a face de mil homens destinados à uma só mulher. E caberá a ela decifrar-te um pouco todos os dias, sedenta, descobrindo-te cada detalhe na aventura de amar. Tu és muitos dentro de um, e tantos são que ouso afirmar não ser apresentada à metade. E penso não haver apenas amor de um só, pois todos - mesmos os desconhecidos - despertam-me doçura de amor. E se mil faces tiveres, mil faces amarei.

domingo, 21 de outubro de 2012

(Talvez seja) A Última Chance


Eu te via fumar quase um maço inteiro ao meu lado. Dizia para parar, isso não faz bem à sua saúde, você bem sabe. Tu sacudias ligeiramente os ombros enquanto acendia mais um e olhava ao redor como se estivesse sozinho. Eras o tipo que fingia não ser com você quando lhe diziam verdades que não sentia vontade de escutar. Me sentia como tua mãe quando agia assim, mas não desistia. Eu me pergunto como foi que cheguei nessa condição pavorosamente triste de me importar até com teus pulmões (eles já nem devem existir mais, de tanto que fumas, oras!). Mais do que teus pulmões, todos os teus órgãos, nervos e tecidos. Não passávamos de dois indivíduos tentando encontrar pequenas alegrias em um mundo vazio. Cantávamos músicas repletas de saudades de um mundo que vivemos apenas dentro de nossas cabeças. Fazíamos um belo par no gênero não-é-nada-comigo, ignorando por completo o romantismo impregnado em cada beco dessa cidade cinza. Discutíamos sempre sobre isso. Você respirava essa maldita cidade poluída e descolorida. Eu, apesar de melancólica, detestava a cidade. Sentia-me demasiada comum, absorvida pelo seu jeito descompromissado, como parte de seus personagens sem vida que andam apressados de um lado para o outro.
Sempre tive ares de deboche, com uma pitada de descaso, mas a verdade é que sempre quis ser salva. Ter um labrador cor de mel. Uma casa na praia, talvez. Também não gostava de praia, sol e gargalhadas sem sentido. Conversamos sobre isso n’outro dia, quando você havia perdido sua xícara da sorte ou qualquer coisa parecida com alguma superstição que havia inventado para reclamar a semana inteira. Eu não sei o que eu quero. Todas as vírgulas tem uma curva acentuada demais ou reta demais. Penso que no fundo, não pertenço a lugar nenhum. Queria tanto me sentir parte de alguma coisa. Algo maior do que eu, como dizem os filmes americanizados. Você sabe, ou melhor, não sabe, porque nunca te contei sobre essas coisas. Não faz parte da minha face favorita, aquela da menina com sonhos iguais aos de todas as outras. No fundo, nós mulheres somos todas iguais e vocês homens são todos iguais. Todos inocentes e sorridentes, até que alguém bate com a porta na sua cara em uma noite chuvosa (porque sempre relaciono cenário chuvoso com tragédia?) e te faz acabar com os ouvidos atentos nas letras das canções em programas de fossa na rádio e perder o fôlego de tanto chorar.
Prometi para mim mesma que não seria nunca mais uma dessas pobres almas. Não importa se ele menciona poetas desconhecidos para me impressionar, ou se manda uma mensagem no meio da noite   me convidando para olhar a janela e ver o Sol nascer em silêncio, dividindo apenas a respiração do outro lado da linha. Decidi que não iria me entregar e ponto final! Não direi que depois de você mudei de ideia. Quero dizer, eu até posso ter mudado um pouco, mas, veja bem, é exatamente porque eu não espero nada de você. Nunca nos imaginei sentados juntos compartilhando silêncios, bebidas e comentários ácidos sobre conhecidos sem nomes. E olha só onde estamos agora, caminhando juntos para lugar nenhum. Você nesse jeito largado de quem ouve bandas britânicas só para passar o tempo, e eu despreocupada e neurótica, indagando se isso tudo é um sonho ou um grande buraco negro que está me puxando sem que eu perceba. Eu mal esperava por você, entende? Sei que isso tudo pode não passar de uma loucura da minha cabeça confusa, mas era exatamente disso que eu precisava. Alguém que não soubesse de nada e nem quisesse saber. Porque, no final, não importa. Sem ilusões de “Do que você gosta?” ou “Qual é sua comida favorita no mundo todo?”. Eu não sei responder, nunca soube. Eu não sei nem quem eu sou, rapaz. Não faço ideia nem se o que eu sinto por você acabará no próximo verão ou se durará todos os invernos da minha vida. Não sei nem se sinto alguma coisa ou se não passa da carência que me invade quando ouço músicas demais no sábado à noite. Agora você levantou da cadeira em que estava jogado e eu pensei que você até poderia deixar algumas notas na mesa e partir acenando com a mão vazia. Não duvido de nenhum acontecimento traumático que possa vir de você. Contigo, eu já percebi, é assim. Ou meu coração flutua, ou se afoga. Quis perguntar se não queria me segurar com sua mão vazia ou me guardar no seu casaco escuro. Você não foi embora.
Sentou-se à minha frente e me olhou de cenho franzido. Perguntei o quê houve. Sem resposta. Continua sua análise. Se pudesse ouvir a batida do meu coração, precisaria correr e desaparecer por um mês, tamanha a vergonha que sentiria. Diz que estou quieta. Só pensando, ou tentando pensar. Na verdade é mais uma crise de adulto que esqueceu de crescer, mas você não precisa saber. Estou corada? Bebi demais. E daí que mal bebi um copo? Cada ser humano tem seus limites. Sua presença me embriaga… O que é que estou pensando? É pior do que imaginava. Andar por aí? (Com você? Sozinha? Você não está raciocinando muito bem, garoto. Olha meu estado, estou quase fazendo uma cena dentro de um bar que eu nem sei como vim parar. Só atendi sua ligação e praticamente me materializei para te ver em tempo recorde, imagine andar por aí sem testemunhas. O que eu não seria capaz de fazer?) Está bem, vamos. Para onde? Lugar nenhum? Para qualquer lugar que você quiser, mas apaga esse cigarro. E daí que você já é crescido? Eu também sou e não saio com caras que querem perder os pulmões até o amanhecer. Agora sim. Sim, eu vou. Não, não estou com medo… Tenho porque ter medo? Não faço cara de criança medrosa coisa nenhuma! Bem, vamos então! Ou será um sonho, ou um erro. Garoto, você não faz ideia, já cometi erros demais. Tudo bem, te darei uma chance. Boa sorte para mim.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Dois copos de Saudade e Três de Descaso

Durante a madrugada fria e traiçoeira que me lembra seu calor, pensava em escrever-te verdades que em momento algum ousei dizer olhando em teus olhos. Quando passaste pela porta decididamente, provando-me que nada eras além de algo que se foi mas não sei vai de dentro de mim, escrevi. E o faço desde então. 
“Aquela garota forte e destemida que conheceste jamais existiu. Nada sou além de uma pobre infeliz que acredita em qualquer conto de fadas dito ao pé do ouvido numa noite de lua cheia. Decidi em uma dessas noites em que a gente deita pra dormir com as costas doendo de cansaço, mas comete o terrível erro de analisar o dia, depois a semana, depois as partidas e a vida - acreditando que era o caos em sua essência mais pura -, que foi a lua que me fez querer-te. Havia algo mágico naquele luar banhando teu rosto, naqueles dedos entrelaçados e nas promessas que fizeste. Ah, recordo-me bem, chamou-me de “meu anjo” e desde então senti realmente ser como um, visitando as nuvens num piscar de olhos. E seus olhos que miravam cada pedaço de mim como se tivessem sido criados apenas para admirar meu rosto corado. Lua cheia, cruel lua cheia. De tantos lugares para brilhar, havia de escolher justo suas feições de moço feito pra mim? Todas as noites, deitada na cama, deixo uma fresta da janela aberta para que a lua entre e peça-me perdão, mas ela não o faz. A lua não faz nada além de iluminar o suficiente para que recorde de tua mão tocando a minha. De todos os gestos, afagos e corpos colados, o que mais causa-me euforia foi seu aperto de mão no pôr-do-sol. Sentia-me tola, sozinha, prestes à entrar em uma ilusão. Queria que alguém, seja lá quem fosse, apertasse minha mão daquele jeito que os dedos dizem estou-aqui-com-você. E você o fez. Sem pressa, tocou minha mão e ali deixou a sua, acariciando parte de mim até então adormecida. Foi mágico sentir, em apenas um roçar de dedos, certezas de uma vida inteira. Naquela cena inocente, soube. Sabes o que soube, porque creio que soubesses também. Jamais disseste - ao menos, não naquele dia - mas até mesmo as crianças que aproveitavam seus últimos momentos felizes na praia antes do anoitecer enxergavam: Eis ali uma menina apaixonada. Você e a lua, unidos e matreiros que são, fizeram-me nada mais do que uma menina. O que dizias era lei. O que não dizias, tortura. Injusto era esse amor, com toda a certeza! Se pudesse, o tiraria de dentro de meu peito e o expulsaria de mim junto de tuas recordações com a lua. Mas não poderia. Não com tanta esperança que ele me entrega de bom grado. Esperava todos os jantares com a mesa posta para dois, tua chegada. Andava pela rua sorrindo para todos na esperança de encontrar-te na multidão. Como é possível amar ser agonia e ânsia ao mesmo tempo? Volte e responda-me todas as perguntas. Se quiser, não responda-me nada. Apenas volte”. Bobagem, dizia ao amanhecer relendo meu rascunho, quando o encanto escondia-se debaixo dos móveis. Eu só precisava virar garganta abaixo alguns goles de uma bebida forte o suficiente capaz de me fazer esquecer por alguns segundos enquanto sinto a garganta queimar. E lá vou em mais um dia de descaso, esperando a lua revelar novamente a saudade. 




Na parede da cozinha o ponteiro do relógio caminha calmamente, alheio à correria que causava e vidas que mudava em apenas um segundo. O olhava e desejava controlar os ponteiros à meu bel-prazer. Acelerar, voltar, até mesmo diminuir o tempo dos segundos. Visitar o passado e me libertar das amarraras que me fizeram ver-te partir. Sentir na pele as sensações daquela manhã chuvosa em que me destes a mão para atravessarmos a rua. Nada me fizeste além de entregar a mão, e senti como se me presenteasses com sua vida. Senti-me dona, finalmente, daquilo que tanto queria. Em poucos segundos, libertou-me a mão, mas permaneci sentindo seu toque por horas.
Se pudesse, retornaria ao momento em que te conheci, só para reviver nossa história. Discutiríamos novamente se a cor de seu casaco era vinho, ou vermelho desbotado, rindo ao final e decidindo que não passava de um casaco. Naquela noite não estava tão frio, e mesmo assim me ofereceu seu casaco-sem-cor, e aceitei - só para sentir seu cheiro de perto. Esqueceria de devolver-lhe, e voltarias admitindo que só emprestara para ter desculpa e me ver. E, como naquela vez meses atrás, agiria com descaso, apesar do pulso acelerado. Em meu íntimo temia desmaiar de contentamento, mas como moça orgulhosa que sempre fui, jamais saberias desta verdade.
Se soubesses que fora pela ausência desse comentário que partirias, jamais o deixaria guardado na gaveta do meu peito. Se soubesse que meus olhos não eram compreendidos em suas declarações à meia noite, traduziria pelos lábios. Nada mais eras do que tudo aquilo que minha vida pedia, e nada mais fui além de uma menina que temeu ter os sentimentos ridicularizados. Precisei ver-te partir para entender que sentimento, para fazer bem, precisa ser dito sem medo ou vergonha. Mas eu, tola, não disse. E você, imprudente, disseste na hora errada. Declarou-se antes do adeus, plantou em meu peito misto de agonia com ilusão de retorno. De todas as minhas recordações tristes, amargas e traiçoeiras, a de sua partida ainda é a que mais dói. O tempo parecia que sabia o resultado daquela conversa, o vento parecia tentar arrancar os telhados e me levar para longe, enquanto os trovões tornavam sua voz quase inaudível. Oh, doce tormento, eles o fizeram gritar. Não bastava dilacerar meu peito, precisava ser aos berros. Nos seus olhos, eu vi, pensará que estava enlouquecida de desespero, mas vi. Enxerguei vontade de dizer naquela sua voz rouca de quanto estás arrependido, que não passara de uma brincadeira e péssimo gosto. Mas como orgulhoso que és, expulsou-o e foi-se embora.
Agora, cá estou, olhando o relógio velho da cozinha, cheia de saudade. Revivendo nossa história todos os dias. Desejando, desta vez, acelerar o futuro, e ver-te cruzar meu caminho mais uma vez. E desta vez, juro-te, não permitirei despedidas.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Para Dormir Melhor


Já não durmo direito há mais de dois dias. Ao contrário do que pode-se pensar, a causa não é nenhum novo livro que anseio devorar o mais rápido possível. Apenas não consigo ocupar todo o espaço da cama que você deixou vago, e desaprendi a dormir sozinha desde que você chegou. Meu quarto virou um grande depósito de rascunhos, textos incompletos, palavras desconexas -, clichês adolescentes que me fazem atirar papéis amassados nas paredes e jurar desistir da caligrafia para sempre. E meia hora depois, como sempre, lá vou eu mais uma vez me debruçar sobre a mesa e rabiscar mais meia dúzia de parágrafos destinados ao nosso novo papel de parede. A cozinha está uma bagunça. Há pratos recém lavados empilhados no escorredor porque ainda não encontrei um centímetro de espaço nos armários - agora, território obrigatório de todos os copos, eu nem sabia que tínhamos tantos! Lembre-me de me livrar de alguns quando voltar. A toalha de flores indefinidas ainda está na mesa apesar da mancha de geleia que você fez minutos antes de sair - eu sei, eu sei, prometo que trocarei antes que volte. A sala se tornou minha nova biblioteca, com meus livros de cabeceira sobre a mesa de centro, já que agora sofro de insônia e peguei a mania de cochilar lendo ou assistindo alguma bobagem na tevê. Antes de pensar que a casa virou um campo de guerra, aviso que as roupas estão passadas e muito bem guardadas - exceto àquelas espalhadas pela cama -, mas pretendo guardá-las antes de dormir, então fique tranquilo.
Agora começou a sessão melancolia na programação musical e perdi o foco das notícias. A voz desconhecida canta quase sussurrando que só ele pode fazê-la feliz, mas parece que ele discorda. Deve ser triste sentir tanto amor por alguém, e esse alguém só te inspirar com a dor. Como é que se pode acreditar no amor assim? E como não ter esperança em que tudo irá melhorar com tantas outras vozes acompanhando mais milhares de alegrias? Ouvindo essas canções, lembro-me de você. Já tivemos nossa fase das canções tristes, das confusas, das felizes, e até daquelas que não entendemos bem, mas ainda nos fazia lembrar um do outro só por ter as palavras “ele e ela”. Creio que agora estamos naquele ponto indefinido, onde tudo está tão além do nosso conhecimento que não existe o certo e o errado, existe apenas a única coisa que podemos fazer. Veja bem, ninguém jamais se instalou em mim como você, e agora não sei o que fazer a respeito. Acredito que ser eu mesma já é o suficiente para você, o que me deixa ainda mais sem rumo. Depois de tantas máscaras, sombras, batons, vestidos que disfarçam minha pele pálida e saltos que uso para impressionar, aparece alguém que ri das minhas piadas sem graça e me ama de jeans, descalça e de cabelos presos. Qualquer mulher tem, no mínimo, o direito de apontar o dedo no seu queixo e perguntar quem é que você pensa que é para jogar todos os meus ensinamentos básicos pela janela e me abraçar como se o mundo estivesse prestes a ir pelos ares, e fazer com que ele realmente vá por alguns minutos. 
Cá estava eu informando o boletim doméstico diário e lá vem você em forma de canção tirar meu foco. Você sempre apronta dessas, mesmo longe. O relógio já marca quase duas da manhã, e ainda estou sem sono. Hora de vestir sua camisa velha - meu mais recente pijama -, e assistir um de nossos filmes. É na hora de dormir que a saudade mais dói. Olho para as pessoas lá fora e te imagino andando pela cidade, seus passos de homem sério contrastando com seu jeito de moço sorridente que encontro quando entra apressado pelos cômodos da casa, vistoriando a bagunça que fiz enquanto estava fora. Recebo seu olhar me dizendo que jamais terei jeito. Eu te respondo com minha melhor face inocente. E então você me abraça, e sorri e não me solta. A saudade evapora até sua próxima partida, quando ela voltará a me visitar. E então você me aperta, me brinca, me ama, me completa, e o mundo parece explodir e fazer sentido, tudo de uma só vez. Ouso imaginar que não existem outros como nós. Parecidos, talvez, mas nenhum como nós. Me pego virando de um lado para o outro no sofá tentando prestar atenção no filme mas me perguntando se seu corpo sofre de insônia como o meu quando está longe. Penso em tomar um chá, mas prefiro congelar no sofá e pensar em você. Quase sinto seu cabelo roçando no meu queixo, seus braços me apertando enquanto sussurra um boa noite abafado na curva do meu pescoço. Você resmunga que acabará sem camisas se eu decidir usar todas para dormir enquanto viajas. Eu sorrio e fecho os olhos. O tempo esfriou, mas estou aquecida. Você está perto, eu sinto aqui dentro, no quentinho do meu peito que surge quando te imagino. Adormeço feliz.