sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Nota de meus excessos, II.

Se o mundo acabar, o samba não tocar, as letras forem vãs e as palavras descartáveis. Se a tristeza pesar, se derem uma rasteira e rirem do corte que o tombo fez no supercílio. Se a janela ranger e privar do consolo que é sonhar por meia hora todas as madrugadas. Se a melodia for oca e as canções tornarem-se mudas, a voz não sair e a literatura morrer. Se as têmporas não suportarem o latejar do crânio e respirar cansar os pulmões. Se viver doer por si só e existir doer ainda mais pela desistência implícita no ser. Se o cair da noite confirmar meus temores, meu bem, deixe-me te beijar, pode ser meu último ato nessa vida. 

Nota de meus excessos, I.


Aceito minha solidão com o vazio que ela traz na bagagem. Eu não sei chorar, mas choro. A dor de ser tanta coisa em coisa nenhuma e sentir-me menor ainda por não suportar a própria dor de me ser. Há um momento entre um abismo e o outro em que não aguenta mais e não querer parar. Estar em cima do muro que te impede de mudar o rumo e não lhe deixa prosseguir o seu. Então não se sabe de mais nada. Uma dor aguda no fundo da alma. Um estar só que enche os olhos de lágrimas só em lembrar como é ter alguém. Choro por mim, por todas as lágrimas caídas sem alguém que afague as pálpebras pesadas até que elas se fechem e renasçam no amanhecer. Pela solidão do domingo e a farsa nos sorrisos da segunda-feira. Choro porque não chorar é suicídio e já cansei de morrer três vezes ao dia. O telefone mudo diz mais do que os dias são capazes de ensinar. Eu não tenho ninguém, então deixo as lágrimas fazerem em mim o afago que peço de mãos que me negam. A solidão que me conforta é a mesma que me rasga. Estou me doendo inteira e é apenas o princípio.
P.S.: Espero que não compreenda sequer uma palavra do que lhe digo neste bilhete. Compreender significa conhecer. Eu não quero que você conheça o que é se doer a ponto de não sentir dor nenhuma, de só querer mergulhar nas águas salgadas que saem dos olhos e nunca mais sair da cama. Eu não quero nada disso para você. Deixe a dor somente para mim, está bem? Leia e me enxergue. Não me olhe, me enxergue! Apenas queria ser salva, compreende? Um afago seu poderia me salvar. Ou um olhar. Sou uma mendiga de sentimentos e faço o pouco durar semanas. O que quisesse dar, por menor que seja, já seria um passo longe do precipício.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Desvios


O que há de tão intrigante nos olhos que se devoram em antecipação ao final da noite?
Você morde o lábio distraído enquanto lê um dos livros comprados no início da semana. Eu observo o mexer dos seus pés largados no braço do sofá e me pergunto pela milésima vez, desde que te ouvi no interfone, o que é que te faz rodar a cidade por horas e parar na minha porta todas as vezes. Você diz que minha sala é o melhor sebo da cidade, então vem. Embora saiba que a real motivação bate de encontro às costelas, aceito a resposta para te fazer ficar. Meus braços tremem para te segurar, mas carinho em demasia te leva. Nosso relacionamento vive atirado pelas paredes, pairando nos ares. Não há certezas ou nomeações. Só há um pertencer sem dono, uma necessidade sem razão. Às vezes quem foge sou eu, no temor desse abstrato. Te assusta, eu bem sei, mas eu sempre volto para você.
Eu lhe imploro por respostas e só recebo desvios. Você me prende contra a parede e quem desvia sou eu. Que receio é esse que demonstra entre meu ombro e a clavícula? E qual o meu receito ao dedilhar os músculos da sua barriga? Você mergulha em mim como se quisesse se afogar e logo depois agarra a borda mais próxima. Não decide se quer morrer comigo ou apenas me ver desmanchar nas águas. Eu te empurro e o puxo para perto. Nos afastamos e corremos de volta um para o outro porque não há caminho alternativo senão o dos lençóis. Não temos nada que nos segure, exceto nós. Eu não vivo sem teus poemas no espelho do banheiro e você não vive sem meus ombros para afundar a cabeça e morrer para o mundo que existe além das janelas. Você é o mesmo trecho que releio antes de dormir e eu sou a bossa nova que escuta antes de fechar os olhos. As canções não dizem seu nome mas o deixa subentendido em cada frase que cita doçura. És doce e amargo, e por isso eu quis te matar dentro de mim. Era preciso fugir antes que fosse tarde, meu amor, mas você entrou pela porta antes que eu conseguisse trancá-la e agora estamos presos. Nunca sei se peço para partir ou se amarro teus pulsos à cama e não o liberto antes de jurar ficar até o fim dos tempos. 
Não ousamos dizer nada, apenas permanecemos. Não conseguimos ou queremos partir. Não há mordidas melhores que as tuas no meu ombro ao dizer bom dia e nem arranhões melhores que os meus nas tuas costas. Tu me pegou pelos braços, me marcou a alma, degustou cada pedaço de pele e tornou-me incapaz de desejar outros braços quando o sol se põe. É por isso que tu sempre esfrega os pés no tapete de entrada e eu apareço ensopada na tua porta toda noite chuvosa. Eu pergunto porque vens e recebo uma resposta debochada. Você pergunta porque vou e digo que quero fugir da solidão. Fingimos o desapego para ocultar o que se esconde atrás dos olhares, meu bem. Sentimos no rasgo, na cicatriz e na tristeza. Felizes somos em compartilhar a tristeza. Expulso teus temores enquanto limpa meus olhos vermelhos. Protejo teu coração em cada afago e salvas o meu em cada palavra. Meu coração é teu e você sabe, tens com ele cuidado perene. O sentir dispensa compreensão. Amor, desejo, adoração, necessidade ou desespero. Tão grande é que fica sem nome, perdido entre as folhas do dicionário. Temos dentro de nós o desejo da carne com a ternura do peito, um se escondendo no outro. Entre gritos e sussurros, sempre há um de nós batendo à porta.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Promessa

Você está com aquele olhar que confunde minha alma. Me encolho, mas continuo. Cruza os braços e sorri divertido, sua expressão me recordando aquela vez em que duvidou de que eu seria capaz de comer mais pedaços de pizza do que você. E eu, mais uma vez, aceitei o desafio. Ficamos em silêncio, um de frente para o outro. Bate a ponta do sapato velho no chão, clássico sinal de sua impaciência, enquanto brinco com o pingente, incapaz de prosseguir te olhando nos olhos. Porque sei que se o fizer, desistirei. É bem verdade, quando o assunto gira em torno de teu nome, me contento com restos, raspas, até mesmo alguns arranhões. Mas teu olhar dos finais de tarde me tira a força. Ele, que tanto me enchia de esperanças hoje é dono de minhas angústias. Você, que me enchia de carinho, hoje banha-me com medo. Mordo os lábios para reprimir a vontade de perguntar aonde foi que nos perdemos, se foi na curva do rio que passamos ou no alto da colina em que demos as mãos. Apenas recordo de não receber seu sorriso quando passamos por aquela ponte de madeira entre o sonho e a realidade. Você me olha sério. E eu, covarde demais para mirar-te nos olhos, foco a atenção em sua barba por fazer e sorrio sozinha. Eu queria te pedir para não ir embora. Eu queria te pedir para não me deixar ir embora. Eu queria dizer tantas coisas dessas que você não espera ouvir e tanto quero dizer, que todas as palavras ficam presas em minha garganta e sou capaz apenas de permanecer em silêncio te esperando adivinhar tudo de alguma forma mágica. Te dizia tanto com os olhos que as palavras tropeçavam umas nas outras e não passavam de olhos apertados e confusos. Queria que me dissesse para andarmos juntos na próxima chuva, um sinal de que não desapareceria antes que pudesse reconquistar esse seu sorriso que mais parece o símbolo do sarcasmo. Traçamos um caminho cheio de curvas íngremes e neblina capaz de fazer-nos cegos, mas com você ao meu lado não havia o medo de cair em algum buraco na mata ou tropeçar nas raízes das árvores. Com você ao meu lado eu não sentia vontade de desistir todas as noites e correr como uma criança assustada de volta ao começo por medo do que me espera no final. Agora, aqui estamos ocupando um cômodo com os olhos cravados no meio do nada e o peito quieto como se tivessem nos privado o direito de respirar. E há tanto à ser dito. Tanto a ser ouvido. Já que as vozes se acovardaram em nossas gargantas, que os olhos digam tudo e um pouco mais. Mas não consigo olhar-te nos olhos. Não consigo pois temo o que verei. Utilizo então o silêncio, e o peço para enviar-lhe que meus sinais vitais já falham e o pranto bate à porta. Não sei bem quanto durou aquela compreensão silenciosa - pareceram-se meses para mim, mas não passaram de minutos. Caminhei para a porta, dizendo banalidades para não perguntar se o veria de novo. Comentei que sua barba arranhava minha pele. Enquanto a porta se fechava, ouvi seu sussurro leve de que a faria antes de encontrar-me na manhã seguinte. Aquilo, para mim, havia sido uma promessa.