Horas correram livremente e nada de você chegar. Cá estou, enrolada em cobertas enquanto ouço músicas tristes de Chico e resmungo graças por não te ver. Meus olhos viajam de relance até a porta sem que meus pensamentos irritados percebam que eles sentem falta da cor dos seus olhos. Meus ouvidos estão ocupados transformando qualquer ruído em passos caminhando pelo assoalho e mãos balançando chaves. Não faz sentido toda essa atuação de que não preciso de ninguém se você não está. As coisas tornam-se diferentes quando sua presença preenche todo o espaço da minha atenção e faz minha resolução virar poeira por me lembrar que é tudo tão fácil de arquitetar quando está longe, mas quando vem não passo de uma apaixonada desesperada por uma pitada de atenção. Mas mantenho-me firme. Cheguei até aqui, e aqui permanecerei. Finjo prestar atenção à melodia e não nos sons da rua. Ouço os acordes da próxima canção e penso que tudo não passa de uma grande farsa. A música, a espera, o interesse mal disfarçado. É claro que eu quero ver-te na porta com um buquê de rosas apesar de preferir uma caixa de doces. Sequer precisaria pedir desculpa - com sua teimosia, temo que jamais a receberia antes do próximo solstício. Sua presença já me bastaria pelo resto do inverno e toda a primavera. Você chegaria, faria sua cara de desentendido e pediria músicas mais alegres. Eu não gostaria de mudar o cantor, mas faria para mantê-lo por perto. Porque desde que vieste transformei-me em uma viciada em carinho que tratamento algum cura, e quando não estás viro uma mendiga, vasculhando em todos os bueiros lembrança para deleitar-me em sua ausência. Quem assistir nossa dramaturgia pensará que não é para tanto, há tantos outros mais gentis e parecidos com meus sonhos de mulher que é insano persistir em quem já não sabe se me quer como certeza de calor ou lembrança antiga. A realidade é que, veja bem, os outros são mais, mas não são você. Não é só você. É você! Me entende? Você é só um homem, que me dá ganas de ser sua mulher. Então eu te espero, faço escândalo e uma atuação patética quando me dá na telha apenas para ver seu olhar preocupado e sua voz calma como se esperasse que a qualquer momento eu pulasse a janela e desaparecesse com o vento. Meu orgulho faz meus lábios ameaçarem a ir embora e meu coração deixa você usá-lo como bem entende, destroçando meus neurônios em um jogo de gato e rato que eu já perdi faz tempo. Estou aqui, sozinha e com os cabelos desgrenhados em plena tarde chuvosa, com as mãos descobertas e frias, esperando seus dedos segurá-las e esquentar das minhas unhas roídas à minha alma. E continuo aqui, esperando com meu olhar zangado para que você faça cara de deboche e venha dividir essa coberta tão sem graça sem você. Porque apesar de confuso, você sempre foi meu, sorri comigo quando sente meu pulso acelerado e nos guarda em um lugar do coração em que só eu tenho a chave. Eu sei que você quer abrir essa porta tanto quanto eu quero escancará-la e te encontrar encostado no portão dizendo que não sei esperar. Então pare de atuar você também, e venha logo, que a música já está acabando e quero pedir um beijo antes do acorde final.
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