segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Desfecho


       O relógio marca 14h12. Estou firme entre os lençóis. A cara amassada de encontro ao travesseiro. Tem seu cheiro, diria em outra época. Tem meu cheiro, digo hoje. A mistura de perfume com suor feminino já conhecidos por nós. Mas nós não existe. Existe eu. Mas eu deixei de existir faz tempo. Existem dizeres afogados na laringe que faço questão de engolir. Tem gosto de fel.
       Passaram seis meses e parecem seis minutos. Li certa vez que andamos numa estrada, essa da vida. Falamos sempre sobre ela e seus tropeços, espinhos, curvas, caminhos íngremes, pontes de madeira velha e todas as metáforas para nomear dificuldades. Eu caí do precipício e só senti quando estava entre as pedras e a água do mar. Esperei que viesse me salvar, qualquer humano ou criatura que me visse entre os escombros de mim mesma. O ser humano, por mais só que seja, sempre aguarda por ajuda, seja de quem for. É nossa forma de nos aproximarmos da humanidade e renegar o animal sujo e degradante que cultivamos desde o berço sem saber, gostava de pensar. Até hoje, continuo a esperar.
       São 14h37. Estendo minha visita ao colchão. Na geladeira tem uma garrafa de whisky doze anos que demoraria mais tempo para pagar do que beber. Foi um presente de quem não sabe meu horror à bebida. Eu rio embriagada sem uma gota de álcool no sangue por receber presentes de desconhecido mas não ter ninguém disposto a me resgatar. Quero virar a garrafa até não sentir o rasgo descer à garganta. Até não sentir nem à mim. Mas beber para afugentar a tristeza, por si só, é triste. Corroer a alma é suicídio e eu imploro ajuda.  Eu não quero esquecer a tristeza com mais tristeza. Eu não quero levantar estancando a dor e deitar sangrando. Me escondo entre os lençóis.
       Tem calmaria mais barulhenta que multidão, meu bem. E eu me sentia em pleno show de rock dos anos oitenta. Está cheio de pessoas vazias, diriam os poetas. Não. Está cheio de seres ainda mais cheios, exorcizando fantasmas juntos em refrões repetidos dentro do carro, do ônibus, das ruas, encontrando-se num único ponto da cidade. Eles gritam uma vez, duas, três. Sorriem para a noite. Os dentes brilhando de encontro às luzes do palco. Ninguém vê, mas todos sentem os peitos jorrando. Por horas, são uma nação, o mesmo ideal desconhecido. Os mesmos hinos.
       Eu não falo sobre despedidas. Eu falo sobre passar o dia desamparada na cama e não ouvir o barulho do telefone e uma voz do outro lado da linha dizendo: “Escuta, eu tô sem tempo mas precisei ligar, você está bem?”. Eu diria tudo. Juro que diria cada palavra que surgisse na ponta da língua. Não faria sentido, mas diria. Porque o valor de quem ligasse seria maior do que a loucura de tentar ser só e junto ao mesmo tempo. Ou não diria nada. Há dias em que estamos tristes, só por estarmos tristes. Viver pesa e gasta os joelhos. Ser só ocupa todo o espaço do corpo, da cama e do quarto.
       Tem quem diga que quando tu deixas de viver, já está morto à muito tempo e não sabia. Eu morri e não fui enterrada. Estou morta e ninguém notou.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Utopia


O calendário marca a data do encontro, mas desconhece a primeira vez que os olhares se cruzaram. O encantamento não provém do acaso, era o que pensava entre madrugadas. Você anda inquieto pela cozinha e enxergo outro alguém entre tantos que habitam seu corpo. Tens tantos seres em um só que não ouso incomodá-lo. Me afetam todos. Eu não me declaro sobre o amor por medo de lhe ver entrando com a bagagem dentro de um táxi na manhã seguinte. Eu não falo sobre sentir porque sentir é doído e você tem a alma pesada demais para se sobrecarregar com a dor do meu afeto. Eu não falo sobre nada com os lábios porque palavras são minha vida e você é capaz de tirá-las com um único afago, posso perdê-las para sempre colocar no lugar sem pensar e sua partida então será a minha.

O cheiro do café vem da cozinha e faço uma careta de desgosto. "Eu quero vinho". "Não gosta de vinho". "Eu não gosto de vinho mas quero me embriagar". "Não quer, não gosta de ressaca". "Estou com ressaca da vida". "O café vai esfriar". "Wisky é muito forte e cachaça é desespero e cerveja é desapego. Vinho é confiança". Estou desesperada mas quero soar equilibrada. Me jogaste no olho do furacão mas não quero que saiba. Outro dia disse que não gosto de me entregar e admito ser verdade. Não digo em voz alta, só para mim, como aquelas utopias dos filmes. Você acende um incenso comprado na loja hippie da esquina. Disse que é bom para meditar ou qualquer coisa assim. Eu quero um cigarro. Diz que eu não fumo e respondo que agora irei fumar. Peço mais uma vez seu cigarro e não tenho resposta. Você some no corredor e a atuação desmorona por falta de platéia. Estou tentando ser alguém que não sou e você sabe. Sou uma covarde, mas isso guardo só para mim.

Você cola na porta do quarto um pedaço de papel rabiscado com sua letra preguiçosa me dizendo para deixar de fugir porque me entreguei já faz tempo e só eu não havia notado. Suas roupas já bagunçam o quarto junto das minhas e seus sapatos estão todos jogador ao redor da cama. Seus rascunhos já fazem parte dos meus. Dia desses completei um conto que havia começado e nem notou a mudança na caligrafia. Uso suas bermudas largas para dormir no verão e não havia notado o cheiro de perfume masculino no banheiro. Meus livros e os seus estão espalhados na estante e já não sei o que é de quem. Você invadiu meu espaço e eu mal notei quão vazia era a casa sem suas camisas penduradas na cadeira.

Eu luto sozinha uma batalha que você venceu no primeiro olhar demorado. Você tem uma mania cega de me dar aquilo que preciso e não o que quero, e isso me faz querer te empurrar contra a parede entre resmungos e querer fazer tudo pelo seu sorriso. Nossos mundos se colidiram há um par de meses com o intuito de trazer-te até mim uma vez mais, eu só não havia notado os sinais de que a parte que me faltava retornara. Foi tudo tão natural que mal notei seus dedos se encaixando nos meus para não se separarem mais.

Minha mão está fundida junto à porta e sou incapaz de me mexer. Você vai enxergar tudo quando olhar dentro dos meus olhos e isso me dá um medo imenso de te ouvir dizer não, não era isso o que eu quis dizer, não é tudo o que você está vendo. Quase sou capaz de te ouvir bater a porta e nunca mais terei suas bermudas no verão ou seus discos ou seus rascunhos e suas costas para encostar o rosto quando eu canso de lutar contra o sono. Te coloco em todos os meus rascunhos porque meus dedos não me obedecem mais e só te repetem e repetem como uma oração ou chamado ou grito angustiado porque você longe dói em cada célula.

Seu olhar encontra o meu quando a porta é aberta e você vê cada centelha da minha alma. "Aonde você vai?". "Vinho". "Vinho?". "É, vou comprar para você". "Eu não gosto de vinho". "Eu sei". "Está com aquele olhar". "Que olhar?". "Aquele que enxerga até a última atadura dentro do meu peito". "Então você também não quer meus cigarros?". "Não". "Então o que você quer?". Eu quero você. Sou triste e desamparada, mas quero você para enfeitar minhas ruas escuras. O ranger dos dentes não me assustam quando sinto seus braços frouxos sobre a minha cintura. Sou um misto de covardia e esperança que só espera os gritos e as lágrimas. Posso não merecer sequer uma pétala, mas quero você para regar meu jardim.

Você me chama de meu amor e pergunta o que há. Penso naquela do Chico, Nina. Eu não ouso visitar seu país, tão distante. Mas é o que desejo fazer entre uma melancolia e outra, me perder em você para jamais ser encontrada. Meu amor, não me chama de meu amor. Não causa esse arrepio na espinha que me faz querer toda a sua atenção pelo resto da vida. Seja casual e me deixe fugir. Eu não quero fugir mas me deixe fugir. "Se eu não for embora agora, será tarde demais". "Já é tarde demais". Você sempre vence.

sábado, 22 de dezembro de 2012

A Falta do Sorriso


Fechava meus olhos cansados e era seu rosto que se formava entre as manchas na escuridão. Não ousava abri-los, para que não desaparecesse como fumaça entre as frestas. O amanhecer demora e sem ele torna-se insuportável respirar. Permaneço inerte abraçada ao travesseiro com os olhos entreabertos para te ver entre sonho e realidade. Espero o dia terminar e ele teima em não começar. A ansiedade da volta é maior que a dor da espera, meu bem. O fim se aproxima e com ele seu sorriso voltará a iluminar a casa. As correntes presas em meus punhos não passam de incômodo passageiro no cárcere úmido do quarto solitário. Sua camisa gasta que tanto acompanhou os lençóis em noites vazias regadas à garrafas de vinho branco está jogada na cômoda porque hoje é noite de cravar as unhas na pele. Os discos que antes tomavam a sala estão guardados porque hoje é dia de apresentação ao vivo. A tevê fora desligada porque o único semblante que eu quero hoje é o seu ao abrir a porta. Os bilhetes na geladeira foram rasgados e jogados no lixo porque hoje é dia de esquecer as ocupações. Me livrei de toda parte secundária para que você caiba inteiro na noite.
O Sol já partiu e o relógio diz a cada batida do ponteiro que você também tem pressa e logo vem. Os dedos batem impacientes no braço do sofá até o estalo de passos no assoalho de madeira anunciar sua chegada. Talvez algum dia eu consiga dizer-lhe exatamente o misto de desespero e prazer que senti ao olhar para a porta. A chave nunca havia demorado tanto para destrancar a porta.
Eu toco seu rosto, você toca o meu. A voz que tanto queria ouvir tornou-se desnecessária assim que os olhos se encontraram. Era capaz de sentir o amor acarinhando a pele que você apertava como se tivesse medo que eu desaparecesse. Não era mais sonho, meu bem. Eu não diria adeus quando os olhos abrissem e você sabia. O ponteiro fez silêncio pela primeira vez em semanas. A casa calou enquanto o sentir dizia tudo. E assim ficamos. Imersos no mundo em que jamais deveríamos ter saído, onde seu corpo jamais se separa do meu. Eu tropecei nos teus calcanhares só para me encontrar nessa vida, meu bem. O destino entrelaçou teus dedos nos meus e fez de nossos corações um só sem que nos déssemos conta. Você sorriu. Eu sorri. Você me amou. Eu te amei. Suas terminações nervosas começavam onde terminavam as minhas. A vida se autodestruía em sua ausência e se reconstruía assim que sua mão girava a maçaneta da porta porque você sempre me quis inteira apesar dos remendos.
Pensei em dizer tanta coisa, bobagens diárias, declarações ardentes, frases hollywoodianas. Permaneci calada. É no silêncio que dizemos o que precisamos, você falava entre contos e histórias lidas na cabeceira da cama. E no silêncio eu disse tudo. A saudade agora parece não haver doído tanto assim e os dias talvez não estivessem tão lentos. A vida não é tão cruel agora que estou sentindo seu coração na palma da mão que está no seu peito. Está na minha mão agora, quis dizer. Mas não foi preciso, você sabia. Aos poucos foi diminuindo a euforia. O tempo da espera passou, meu amor. O sofá agora abriga dois corpos que mais parecem um só. Seus braços tomam meu corpo num abraço que deveria durar para sempre. Os lábios beijam toda a pele que conseguem alcançar. As chegadas me lembram todas as vezes que não importam as partidas, nos reencontraremos. A parte de um está cravada no outro. Mesmo que estejamos perdidos, meu bem, saberemos voltar.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Meia Noite

As luzes da rua irromperam a cortina e desabaram nos meus olhos cansados. A claridade nas frestas expunha o monstro que habitava meu quarto. Os sapatos espalhados pelo chão, os livros abertos e grifados nos trechos que lembram a vida que sonhava ter tomaram todas as mesas da casa. As paredes brancas tornaram-se cinzas, mas apenas eu a vejo assim agora. Acredito que até eu tenha me tornado um tanto escura. Sem cor diante de tanta repugnância. Um ser perdido dentro de si mesmo.

A jaqueta vermelha que me deu no último aniversário permanece pendurada na cadeira em que recostava para espiar meus segredos de escrivaninha, o último resquício de quem eu era. Há dias em que me pego imaginando se tudo não fora um resultado do excesso de álcool de uma sexta-feira à noite, em que criei todo um passado colorido e repleto de flores pelas paredes para não desejar morrer na ressaca da manhã seguinte.

Então me recordo de você, menino. É tolo chamar-te de menino, eu sei. É tão homem quanto pode com seu olhar feroz. Um lobo perdido dentro do ser humano, vagando pelo mundo à procura da alcateia. Eu sempre fui esse monstro enjaulado tentando adormecer numa tarde qualquer e morrer de inanição. A minha parte sombria não quer se alimentar desse mundo por medo de fazer de mim tão asquerosa quanto todo o resto, então prefere a morte.

Estou exausta, meu bem. Grande parte disso não é sua culpa, ao contrário do que possa parecer. Fujo de você como o gato foge do cão porque sei que me despedaçará inteira até encontrar a essência dos meus pesares e mostrar-me as raízes. Corro para longe, mas preciso de você como a terra precisa de chuva, as árvores dependendo das águas para florescerem. Te preservo no lugar mais arejado e bonito do peito, escondido da maldade que entra pelas frestas. Em verdade, recordo-me de você para não decidir arrancar as grades da janela e me atirar do sétimo andar sem olhar para trás. Você é o passado bonito que lembrarei para morrer sorrindo quando estiver no meu último suspiro.

O mundo me dá asco. Tentei entrar em outra dimensão, procurar um lugar menos triste para viver. Quis mergulhar nas águas de Galápagos e me perder no meio do oceano, entre as espécies selvagens como nós dois, indomáveis. Mas a tristeza estava dentro de mim. A angústia rasgava meus órgãos e eu não desviava das garras. Eu bebi para vomitar até as entranhas e exorcizar o monstro que se esconde nas minhas veias porque ele e o mundo se uniram para me enlouquecer. Dois lados diferentes e inimigos tentando me cortar até se esvair toda a memória de que já habitei este quarto sombrio do apartamento 72.

Puxo as cortinas com força para trazer as luzes, torcendo para que elas penetrem na minha alma e mate toda a doença que o mundo passou nesses anos de felicidades ilusórias. Hoje a lua está tão bonita, meu menino. me convidarias para assistir ao espetáculo do amanhecer se estivesses aqui. Eu trocaria minhas roupas amassadas por um vestido florido e o seguiria até o parque, o alto do prédio, o fim do mundo. De todas as ilusões, você é a aquela que eu tornava real propositalmente, para forçar um sorriso esperançoso.

O desespero me dá pontapés no estômago e eu te chamo inconscientemente olhando os bares cheios de jovens embriagados e risonhos, gritando histórias insanas enquanto bebem clandestinamente, enroscados uns aos outros em seus abraços selvagens de amigos de botequim. Os invejava abraçando aqueles que são equivalentes ao que você é para mim, despreocupados e excitados com o agora, como se amanhã não houvesse a dor de facadas por pensar tão pouco e a secura da garganta e coração.

A dor deles é a de se entregarem demais ao carpe diem aprendido nas salas do colegial, levado ao pé da letra por uma juventude perdida em certezas descartáveis. Minha dor é a dor de não ter ninguém por perto além dos monstros escondidos em cada sombra da casa. A culpa deles sempre será a de ter bebido demais na noite passada, gestos repetidos todos os finais de semana e confraternizações entre desconhecidos unidos pelo desejo de cometer loucuras.

Minha culpa é andar na contramão, esperando que alguém cometa a loucura se de aproximar da minha sanidade disfarçada. Tua culpa é não estar aqui do meu lado para tornar-me mais como um ser humano, menos como um fantasma que assombra a si mesmo.

Isso pode não lhe fazer sentido algum, meu menino, mas diz tudo.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Lembro de você em You and Me

Começo a sorrir. A medida em que te imagino recostado na cadeira ouvindo as notas da canção aí do seu lado do globo, o sorriso cresce. Toma meu rosto. Aquece daquele jeito que nos faz querer deitar e dormir só para terminar a noite bem, como criança após jantar sua comida preferida e dormir satisfeita enquanto o pai lê uma história de final feliz.

O mundo é nojento e as pessoas são cruéis, amor. O mundo é cruel e as pessoas são nojentas. O mundo e as pessoas são uma coisa só, um todo que me entristece até um pedaço de esperança morrer. Eu me tranco no quarto e quero desaparecer. Eu quero me unir ao papel de parede e tornar-me parte da casa, um todo perdido no meio desse desdém feito de paredes e tijolos.

Na beira de toda essa loucura asfaltada, é tua voz que escuto vinda de algum lugar da multidão.

Queria dizer doçuras para lembrar-se de mim do seu lado do mundo e sentir o peito quente como o meu fica quando partes de você aparecem no meu dia, mas a vida está difícil. Só sinto angústia, amor. Eu queria que soubesse que está ardendo tudo aqui dentro, como uma ferida recém aberta, mas ainda há beleza esperando por você. Diria para não se preocupar, mas a verdade é que quero seu desespero, para que venha bater na porta de casa, porque a vida me dói demais e só teu afago pode me curar.

A música diz que somos só você e eu. É disso que preciso para terminar a noite acreditando que há um jardim só nosso no fim da estrada. Estou do outro lado da rua e você está no mesmo caminho.

Eu repeti a canção três vezes para te cravar na minha mente a noite inteira. Te vejo fazendo o mesmo. Ou imagino. Já não sei o que existe e o que inventei.

Queria te ver hoje, mais do que todos os outros dias. Precisava te encontrar hoje para dormir sem dor pelo menos por uma noite. Não será possível, eu sei. Os dias andam tão corridos que mal tem tempo de terminar o café. Meus dias rastejam e a vontade de chorar aparece até na hora do almoço. Você sabe, não costumo debulhar em lágrimas durante o dia, mas até o jornal da manhã já possui marcas de lágrimas.

Esqueça tudo o que eu disse. Foi só desespero, saudade e a dor aguda de viver que tem me tomado o juízo e provocado crises de tristeza. 

A música já toca pela sexta vez e ainda absorvo a letra como se nunca houvesse escutado antes. Eu respiro fundo no refrão todas as vezes. Somos só eu e você. Nada mais.

Me embriago de você para dormir melhor.

Só queria te avisar que te abracei em pensamento e sussurrei a canção no seu ouvido.

Sentiu o abraço?
Ouviu a canção?
Me sinta como eu te sinto e me enxergue no outro lado do mundo.

Eu te amo, e você sabe.
Boa noite.
Sonha bonito. Sonha comigo.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Cômodo Vazio



Falta a voz ao pé d’ouvido causando-me arrepios na espinha quando chega de surpresa com uma rosa vermelha recém colhida. O cheiro do perfume forte que usa apenas para me agradar. A tristeza mal disfarçada, os soluços fora de hora. A dor por amar demais e não saber se abraça ou afugenta o sentir. Tantos afagos que poderíamos ter enquanto assistimos o telejornal na meia luz da sala de estar. Mas seus ombros teimam em ficar distantes da minha cabeça que pende para o lado num cochilo sem travesseiro de gente. Noites com pernas entrelaçadas e pés aquecidos nas panturrilhas, desperdiçados por edredons solitários enrolados como uma capa protetora de saudade. Palavras que aguardavam o anoitecer para serem sussurradas, mortas na laringe por não serem atiradas aos seus ouvidos.
Sinto falta das tuas orelhas frias mesmo no verão, e do seu pescoço sempre quente e pronto para esquentar meu nariz no inverno. Os ombros sentem falta dos beijos de boa noite e a cintura sente falta do aperto dos seus braços. As tardes esperam as gargalhadas despreocupadas e as noites aguardam ansiosas o cheiro da pizza de calabresa e a admiração pelo céu estrelado. O cinema continua passando filmes da moda que te fazem rir e me fazem chorar porque o clichê é meu calcanhar de Aquiles. A cafeteria da esquina ainda serve o melhor capuccino do (nosso pequeno, porém bom de viver) mundo (tomei um por você um dia desses, enquanto lia um dos livros esquecidos propositalmente, eu sei que foi um plano para que eu lesse, nem tente negar). Não aprendi a escrever mensagens pequenas e a geladeira está cheia de post-it para que eu não esqueça de fazer coisas como buscar a roupa na lavanderia ou deixar a bagunça que deixou intacta. Outro dia me perguntaram de você e eu segurei a angústia como uma boa menina crescida, se orgulharia de mim se estivesse lá para ver. MPB continua desbancando todas as novas canções internacionais, mas isso você já sabe.
O sofá parece mais ranzinza e antipático, passei a evitá-lo com frequência. A cama tornou-se maior do que poderia imaginar, causa-me insônia toda essa grandeza. Minha sapatilha deixou de ter aquela deformação que seu sapato causava por estar sempre esmagando a parte do calcanhar. Tem mais espaço no guarda-roupa e isso me preocupa constantemente. Não me faltam roupas. Talvez um ou outro conjunto que admirei outro dia na vitrine, mas eu não quero preencher o vazio que você deixou, então deixo aquele espaço vago lembrando-me sua volta sempre que saio do banho e abro todas as gavetas.
Passei a ver fotografias antigas. Em uma, está piscando pelo flash enquanto ri de alguma piada infame. Em outra, sorri com o rosto colado no meu. A minha favorita é aquela em que está sozinho, sorrindo para mim, a fotógrafa. Meus olhos sentem falta do seu sorriso e tornaram-se um tanto quanto tristes e escurecidos. As borboletas no estômago me visitam de tempos em tempos, quando ouço sua voz nas mensagens da secretária eletrônica. Pergunta sempre se estou bem, e reclama por não ter resposta. E continuo sem te ligar. Só a voz não alivia a pressão no peito, amor. Eu te quero inteiro e você sabe.
Te envio um beijo à meia-noite em ponto para que lembre de mim no último suspiro antes de sonhar (quem sabe assim nos encontramos no inconsciente).
Eu gostava de viagens até conhecer você. Agora gosto de mãos dadas, beijos na testa e promessas exageradas. 
Prometi à mim mesma não falar sobre saudade, mas você arrasta minha mente para onde desejas, e aqui estou a pensar no pedaço de paraíso que se esconde no seu corpo.
Sigo vivendo minha sina de esperar te ver cruzar a esquina do nosso café favorito com suas malas e meus pertences, você e seu peito meio amargo, meio ansioso. Meu amor em cada marca da sua pele, nas marcas de mordidas ansiosas no lábio inferior, o cenho franzido de ansiedade, os dedos estalados na esperada chegada.
Minha alma sente falta da sua, isso é tudo que precisa saber.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pra não Dizer


Eu vivo entre o (sor)riso e a lágrima de quem ama. E como eu te amo, menino!

Tu me dói como uma ferida exposta. Te enxergo cruzar o portão com meu coração guardado no bolso. Teus passos fazem a cor se esvair do meu corpo. Antes era tudo tão florido e bonito. A alegria partiu dentro da tua mala e você nem reparou. Cada pedaço de mim está grudado nas tuas roupas e só me sobrou o corpo. Você não viu ou quis levar-me como lembrança. 

Imagino partes minhas te completando sem que saibas. Eu parti do teu lado, meu amor, e você não sabe. Eu sou uma bagunça escondida debaixo da sua cama, um pequeno defeito no meio do seu quarto impecavelmente limpo com cada virtude que regara desde menino. Se embaralha com as cartas enquanto tenta equilibrar seus cadernos debaixo do braço, eu corro para ajudar Te digo o canal em que passará o filme no qual havia se interessado. Lembro-te de tomar os remédios para dor insônia e escrever e-mail para seus pais. Não esqueça da visita que prometeu. Sua mãe conta os dias para fazer seu almoço predileto. Eu conto as horas que passaram desde que se foi, antes mesmo de partires.

Perdoe-me. Perdoe-me, meu amor. Eu só sei falar sobre saudade e partidas porque eu te vejo ir embora todos os dias. Não ouso te ver arrastando sua poltrona no carpete da sala e se desculpando pela milésima vez por ter cochilado no meio do filme. Sonho com o dia em que trará as malas e dirá que de lá não sai, que de mim não sai. Mas o pesadelo quebra as janelas e apaga as luzes. A melancolia chuta os armários até o amanhecer e me impede de dormir. Os dias são chuvosos já faz tempo. Eu engoli as nuvens para que o temporal não chegasse na tua porta. Talvez seja minha natureza egoísta querendo a tristeza apenas para ela. Talvez seja porque teus olhos angustiados me doam mais que a própria angústia.

Fecho os olhos para não te ver parado à minha frente, temendo que tudo não passe de um sonho tão bonito que causará minha ruína quando o despertador tocar. Você é meu coma induzido e eu não quero abrir os olhos para a realidade que é viver sem tua pele roçando na minha. Eu já me perdi faz tempo. Nunca fui inteira. Você me encontrou. Eu posso me perder, mas não posso perder você. Sou de meias palavras e não te dou motivos suficientes para balançar tranquilo na rede. Eu pioro tua insônia e até causo tuas dores de cabeça com a solidão que me habita o peito. Detesta minha mania de virar as costas para o que sinto por medo do amor. Mas eu fico de frente para você. Cravo meus olhos nos teus e não mudo o rumo. Faço promessa absurda e cumpro. Eu gosto da noite, de sorrisos e de você. Eu faço a noite nossa, dos seus sorrisos, os meus, e você, eu. Então fica. Mais um pouco. Para o jantar. Para dormir melhor. Para desvendarmos alegrias na manhã de domingo. Para alegrarmos todas as manhãs. Fica. Fica pra sempre. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Roteiro Repetido


Eu te esperarei até nas noites sombrias.

Não sente o coração há dias, mas ele está batendo desesperado. Sabes que está. Pobre moço que sente demais, fadado a repetir a história. Alguém o desperta de repente. Se encanta com a quentura que dá dentro do peito. Esse negócio que esquenta, esquenta, até que esteja em brasas. Parece doença, só que pior. Doença tem tratamento, cura, esperança. Essa brasa só aprendeu a queimar. É traiçoeira, a cretina. Disfarça que se foi, mas continua ali. Calada. Esperando a recaída do pobre rapaz. 


“O que se faz numa situação dessas, Zé?”, perguntou o moço, sentindo-se anos mais velho do que realmente era. Amor não deve ser assim, ele pensava enquanto dormia sozinho na bagunça que virou o quarto. Pegou-se respondendo a si mesmo em seu monólogo com Zé-Ninguém. “Acreditamos, pois não há nada mais para fazer”. 



Recordou-se daquilo que fez após encontrá-la. Fechou os olhos e rogou por favor, por favor, que esta vez seja diferente. Jurou não se entregar nunca mais, mas o fascínio se entregara por ele.

“A mulher, como veio, se foi. Na noite. E nem era a noite feia em que se vê nos filmes. O céu estava estrelado, a Lua iluminava mais que os postes da rua, se é que podemos dizer que essas lâmpadas trazem claridade para alguém. Não era como aquelas noites sombrias e chuvosas que nos fazem sentir num filme de terror adolescente. Nessas noites, sim, já esperamos desgraça. Eu nem estava preparado! Quem está preparado para o adeus em uma noite como essa? Ou em qualquer outra noite? 
Um bilhete. Nem uma mísera carta. Ah, que desapego. Não sabia se xingava ou invejava tanto desprezo. A desgraçada nem levou tudo, Zé. Deixou aquele cheiro indefinido por todo canto, sabe? Aquele cheiro que se usa para marcar presença, e na verdade nem é um cheiro. É mais uma aura dela. Eu sou ruim para definir essas coisas. Só sei que ela está por toda parte! Deixou também um livro gasto de tanto ler. Ela havia me dado, mas lia mais do que eu. ‘Dava esperança’, ela dizia. Me deu um livro sobre esperança e depois arrancou todo o resto de mim. Que me desse uma carta decente de adeus para me dar o que pensar! É um teste em que já fui reprovado tem tempo. Nem beber eu consigo mais! Tenho medo de vê-la passar pela rua e não perceber por estar tentando não desmaiar no meio da calçada. Comer, então, nem se fala. Lembro sempre dela com aqueles lábios franzindo enquanto dizia que eu só comia ‘produtos pouco saudáveis’, como uma condessa perdida no futuro ou algo assim. Odiava aquele ar superior que ela fazia enquanto tentava me ensinar o que não queria aprender, mas adorava aqueles lábios traiçoeiros. Veja bem, Zé. Agora que ela se foi, me tornei quem ela queria. Isso lá é justo? Estou esperando que ela volte, diga que sou o cara errado, e se perca em mim de novo porque meu erro dá certo com ela”.

Dá saudade, dá tanta saudade. Nostalgia que vem e passa. Dor que vem e fica. Carência que ninguém tira. Os afagos são poucos para o que precisa. Os arranhões são muitos para o corpo que tem. Caminha, arrogante, altivo. Um valente cavaleiro sem alazão. Se entrega ao descaso. Faz dele amigo ordinário, que vem e vai quando bem lhe convém. Um dia, finge amar outras, n’outro, sente repugnância de si mesmo por renegar a única mulher capaz de fazê-lo amar e pensar que outras tomariam seu lugar. “I don’t care” está colado em seus lábios, como um mantra. Um desespero mal contido. But I don’t care, so whatever… Até ela voltar. Então acontece tudo de novo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Vendo sem (te) Ver


Eu sou o clichê do sorriso escondendo lágrimas, à espera de alguém que enxergue meu medo de ser feliz demais, e me obrigue a ser porque é preciso deixar o depois para depois. Uma cética desejosa que apareça quem destrua os ideais racionais e afugente as certezas. Transformei-me em rocha sensível como cristal. Ouço pessoas em calçadas dialogando sobre o que não conhecem entre um trago ou outro em cigarros baratos, expulsando de dentro de si teorias sobre desconfiança válida ou desapego inteligente, poluindo meus ouvidos como a fumaça que sai com as frases poluem meus pulmões. Eu acreditava neles, mas negava. Entre andar de bar em bar tentando preencher o vazio existencial e molhar o travesseiro como uma criança assustada com as sombras da parede, eu escolho me afogar em lágrimas.
Eu tenho medo de me doer, mas queria sentir. Desesperadamente. Como queria! Mas uma embriagada cheirando nicotina não atrai destino bonito. Meu moço dos olhos cor de mel não sorriria ao me encontrar patética e trôpega. E, céus, como quero vê-lo sorrir! Adormeço com seu sorriso de encontro ao meu rosto. Passo os dedos pelo espaço na cama como se pudesse sentir sua pele firme através dos lençóis. Ele virá para ouvir o palpitar do meu peito e saberá que é só para ele. Eu também sei gargalhar leveza, brincar de não pisar nas linhas da calçada, encostar no muro e dar aquele suspiro seguido de sorriso que vejo nos filmes. Só preciso dele para me ensinar. Parte de mim devolve em sarcasmo. Pesadelos recordam que não conheci a frieza ao acaso. Tropeços fizeram de mim a sabotadora de felicidade que cansada e só se martiriza por discar tantas vezes o número errado. 
Nada sei, mas eu te sinto. Somos dois implorando por alegrias, sejam grandes ou pequenas, temendo que a vida as esconda assim que estendermos as mãos. Eu sei, meu bem, não preciso tocar seus braços para sentir a tensão em cada músculo, o desejo dos afagos que não ousamos pedir, o brilho dos olhos que insistimos em fechar. Eu me afundarei em agonia só para ver se você me faz ver graça nessa vida. Aceito a tristeza pensando em te encontrar expulsando toda a escuridão dentro de mim. Não passo de uma hipócrita que rotula-se com o ceticismo, escondendo a esperança de esbarrar no teu caminho. Tão iguais, com todo esse receio e toda essa vontade. Tanta vontade de jogar a certeza fora e amar sem pensar, sem fugir. Só amar, com tudo o que o amor traz consigo. Disseram tanto sobre esse bendito amor (até o chamaram de maldito, veja só!). Quero contar-lhe tudo, meu menino. Façamos nossa própria definição desse matreiro, o amor.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Partida


Este bilhete, carta, ou seja lá como queira chamar um pedaço de papel rabiscado, contém em cada linha vazia toda a dor que jorra do meu peito. Eu poderia te escrever sobre as entranhas rasgadas, o sangue escorrido no carpete, o choro desesperado de minhas artérias. Mas meus dedos se negam a frieza. Minhas palavras se recusam à desistência. Eu poderia inventar neste papel histórias mirabolantes, dizer casualmente e impessoalmente que sua chegada não me causa taquicardia. Deixaria o papel dobrado em cima de sua mesa e partiria sem deixar nada para trás além de um coração doído.
Havia lido em algum lugar que era chegadas e partidas. Pois isso é o que sempre fui. Sentia-me uma estação. Talvez algo menor, um ponto de ônibus. Eu não marcava ninguém, mas todos que passavam deixavam suas pegadas dentro de mim. Tua diferença é que não partiu inteiramente como todos os outros. Tu vens, e me marca, rasga, parte ao meio. E vais embora. Eu quis te marcar, cravar-me em tua pele e perder-me em teu furacão. Mas não me permites. Tu me atira ao chão e foge dos meus afagos. Nega meu afeto com um aperto de mão que mais parece uma adaga nas vísceras. 
Perdoe-me por não ser poeta nestas mal traçadas linhas repletas de pesar. Pesar de tristeza, de peso, de todos os significados que contém nas palavras e entrelinhas. Eu não sei falar sobre o escarro. Enfiar o dedo na garganta e vomitar gosma verde com toda a crueldade da alma. Não fui feita para fazer um buraco no peito e espremer o coração até esvair a última gota de sonho. No fundo, não passo de uma filha da puta que procura a beleza em todas as rachaduras. Eu engulo tristezas e guardo-as numa espécie de caixa de Pandora dentro do peito. Por vezes, tranco-me no quarto e faço da solidão minha companhia, mas não as deixo fugir. E não serás tu que libertará toda a crueldade com gosto de fel que a vida me obrigara a mastigar. 
Eu não falo sobre o amor por ele estar implícito em tanto sofrer. Não escrevo que te amo pois sabes que meu coração bate junto do teu. Não ponho nesta carta teu nome ao lado da palavra carinho pois senão rasgarei estas palavras e te esperarei entre as poesias que dividimos em silêncio. Deveria ter apenas dito-lhe um adeus somado ao não-me-procure jamais. Avisá-lo como mulher adulta, mas tu bem sabes minha alma de menina. Derreto entre murmúrios e estendo esta carta para que apareça na porta à tempo de me impedir.
Essa não é uma carta de despedida, ouso admitir. É um desabafo desesperado para que você, por favor, jamais desista de mim. Irromperei por esta porta e esperarei que corra pela rua até que me encontre e me arraste com você perguntando o que diabos eu tenho na cabeça, enquanto engulo a vontade de chorar aliviada por ter me buscado. Só quis causar-lhe o medo que tenho todas as manhãs quando me vejo sem você e pergunto-me se voltará até o anoitecer. Vais nomear-me louca, disso não tenho a menor dúvida. Talvez até pense realmente em deixar-me. Mas não o fará. Estás tão enredado em minhas teias quanto eu nas tuas.
Peço desde já perdão, meu amor, por tamanha prova à tua sanidade. 
Não te esqueças: O pulsar do coração se acelera quando a chegada se aproxima.
Te espero às 19h em ponto para o jantar.

domingo, 28 de outubro de 2012

Sobre Esperas e Canções

Horas correram livremente e nada de você chegar. Cá estou, enrolada em cobertas enquanto ouço músicas tristes de Chico e resmungo graças por não te ver. Meus olhos viajam de relance até a porta sem que meus pensamentos irritados percebam que eles sentem falta da cor dos seus olhos. Meus ouvidos estão ocupados transformando qualquer ruído em passos caminhando pelo assoalho e mãos balançando chaves. Não faz sentido toda essa atuação de que não preciso de ninguém se você não está. As coisas tornam-se diferentes quando sua presença preenche todo o espaço da minha atenção e faz minha resolução virar poeira por me lembrar que é tudo tão fácil de arquitetar quando está longe, mas quando vem não passo de uma apaixonada desesperada por uma pitada de atenção. Mas mantenho-me firme. Cheguei até aqui, e aqui permanecerei. Finjo prestar atenção à melodia e não nos sons da rua. Ouço os acordes da próxima canção e penso que tudo não passa de uma grande farsa. A música, a espera, o interesse mal disfarçado. É claro que eu quero ver-te na porta com um buquê de rosas apesar de preferir uma caixa de doces. Sequer precisaria pedir desculpa - com sua teimosia, temo que jamais a receberia antes do próximo solstício. Sua presença já me bastaria pelo resto do inverno e toda a primavera. Você chegaria, faria sua cara de desentendido e pediria músicas mais alegres. Eu não gostaria de mudar o cantor, mas faria para mantê-lo por perto. Porque desde que vieste transformei-me em uma viciada em carinho que tratamento algum cura, e quando não estás viro uma mendiga, vasculhando em todos os bueiros lembrança para deleitar-me em sua ausência. Quem assistir nossa dramaturgia pensará que não é para tanto, há tantos outros mais gentis e parecidos com meus sonhos de mulher que é insano persistir em quem já não sabe se me quer como certeza de calor ou lembrança antiga. A realidade é que, veja bem, os outros são mais, mas não são você. Não é só você. É você! Me entende? Você é só um homem, que me dá ganas de ser sua mulher. Então eu te espero, faço escândalo e uma atuação patética quando me dá na telha apenas para ver seu olhar preocupado e sua voz calma como se esperasse que a qualquer momento eu pulasse a janela e desaparecesse com o vento. Meu orgulho faz meus lábios ameaçarem a ir embora e meu coração deixa você usá-lo como bem entende, destroçando meus neurônios em um jogo de gato e rato que eu já perdi faz tempo. Estou aqui, sozinha e com os cabelos desgrenhados em plena tarde chuvosa, com as mãos descobertas e frias, esperando seus dedos segurá-las e esquentar das minhas unhas roídas à minha alma. E continuo aqui, esperando com meu olhar zangado para que você faça cara de deboche e venha dividir essa coberta tão sem graça sem você. Porque apesar de confuso, você sempre foi meu, sorri comigo quando sente meu pulso acelerado e nos guarda em um lugar do coração em que só eu tenho a chave. Eu sei que você quer abrir essa porta tanto quanto eu quero escancará-la e te encontrar encostado no portão dizendo que não sei esperar. Então pare de atuar você também, e venha logo, que a música já está acabando e quero pedir um beijo antes do acorde final.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

(A dor) De todos os Lados


O telefone toca e desejo que seja você com mais uma saudação que antecede grandes planos. Não passa de uma atendente de telemarketing me oferecendo um plano “imperdível”. Engulo a frustração e rejeito. Atender esperando ouvir aquela voz que me arrepia a nuca mas escutar a voz fina de uma desconhecida tentando pagar as contas não é lá uma experiência agradável para a taquicardia. Em uma crise de mulher louca, quase mando a pobre coitada parar de falar porque estou esperando uma ligação que nem sei se receberei. Veja bem, você nem falou nada envolvendo telefonemas, como sempre. E mesmo assim espero ouvir tua voz, como sempre. Você não sabe, mas espero encontrar um pedaço seu em cada canto dessa cidade oca. Eu juro que também não entendo! Quer dizer, num dia estamos esparramados na cadeira de um bar conversando amenidades, e no outro me vejo procurando o livro só porque havia dito que a personagem despertava em você as mesmas sensações que eu.
Você está bem onde imaginei que estaria. Sentado num banco gasto, olhando o sol nascer. Te observo de longe. Enxergo um menino no corpo de um homem completo. Sinto o medo ao redor dos teus olhos escuros, ou seriam os reflexos do meu? Meus pés estão lutando contra a razão para caminharem até você. Eles sabem que meu lugar é ao teu lado, nessas viradas noturnas. Ou pensei que era. Eu só queria me desculpar. Pelo quê, não sei bem. Quis perguntar se estava perdido, mas a verdade é que a alma perdida era eu. Você apenas estava no lugar errado na hora errada e tropeçou do maior erro dessa cidade grande: eu. Ingênuo como é, nunca imaginaria que havia uma bomba relógio contando seus passos enquanto dialogava sobre o futuro bonito que planejava. Finalmente acreditando existir beleza na vida, quase corria para te acompanhar. Troquei a maquiagem pelo suor e os saltos pelos tênis de corrida para conseguir estar aonde você estivesse. Joguei fora os livros de auto ajuda e preenchi as estantes com felicidade para que você viesse. Até reservei um lugar especial para teus rascunhos na cabeceira da minha cama! Eu me refiz inteira para você me achar bonita como a vida passou a ser depois daquele passeio no meio da noite.
Disseste que não lhe escrevia. Mentira. Eu escrevia sobre falsas verdades e partidas até conhecer teu riso manso. Passei a achar que tudo em você era manso. O riso, o sorriso, a fala. Tua voz fazia meu coração manso. Os rascunhos antigos foram largados numa caixa qualquer no sótão empoeirado. Agora, estou aqui, patética, esperando ligações que jamais serão feitas, olhando de longe seus cabelos bagunçados que nunca mais arrumarei enquanto descansa o rosto no meu ombro. Eu só pensei que fosse você, entende? Quero dizer, eu sabia que era você! Você, com teu ar debochado, a camisa gasta, o afago doce. Chorava e rogava para que fosse você. Porque nenhum abraço era melhor que o seu nos dias de trovão e nenhuma palavra era mais bonita que as tuas, cúmplice dos meus ouvidos. Era você e ponto final. Você não retornou a chamada, não respondeu as cartas. Você tirou o telefone do gancho e rasgou meu nome dos teus livros. Eu prometi parar de te procurar, morrer para e por você. Bastaria dizer as palavras definitivas e te deixaria em paz. Nenhum barulho doeu tanto quanto o da porta que fechou ao me deixar.

Moço de Mil Faces

Quem és tu? Serás aquilo que vejo ou és o que faço questão de ignorar por temer repudiá-lo? Aqueles gestos eram teus ou de um teu entre tantos outros que lhe dividem os humores? As palavras saíram de teus lábios ou de uma de tuas mil faces? E este amor que destino à ti, é de um ou de todos? Admiro-o com os olhos fechados, e nesse momento, passas a ser guardião de milhares - como uma gaveta, guardando dezenas de cartas de um só destinatário. Ao escancarar as pálpebras, desatar as pupilas, vejo rostos e ações de seres distintos num só corpo. Me fascinam, me encantam, me amedrontam. Pergunto-me por qual destes seres meu corpo congela, qual toque anseio. Seria o ranzinza, com o cenho franzido e olhar de moço sério e indiferente? Encanta-me. Seria o amoroso, com cafuné tranquilizador e braços macios? Encanta-me. Seria o conquistador, com sorriso arrogante e camisa desalinhada após longo beijo? Encanta-me. Encantam-me. Se tiveres mil faces, por mil serei eternamente apaixonada. Com seus trejeitos, afetos e contradições, encantam-me. Olhar teu rosto pálido na escuridão, os cabelos bagunçados e a camisa amassada por tantos abraços que dei-lhe enquanto repousavas, só me fazia sussurrar ao pé do ouvido: Encanta-me. Tens faces diversas. Tens crueldade em sua sobrancelha cética erguida e doçura em seu olhar de menino inocente. Tens descaso nos lábios apertados e graça no riso que tentas - sem sorte - reprimir. Tens a alma de mil mundos entrelaçada num corpo só. Tens a face de mil homens destinados à uma só mulher. E caberá a ela decifrar-te um pouco todos os dias, sedenta, descobrindo-te cada detalhe na aventura de amar. Tu és muitos dentro de um, e tantos são que ouso afirmar não ser apresentada à metade. E penso não haver apenas amor de um só, pois todos - mesmos os desconhecidos - despertam-me doçura de amor. E se mil faces tiveres, mil faces amarei.

domingo, 21 de outubro de 2012

(Talvez seja) A Última Chance


Eu te via fumar quase um maço inteiro ao meu lado. Dizia para parar, isso não faz bem à sua saúde, você bem sabe. Tu sacudias ligeiramente os ombros enquanto acendia mais um e olhava ao redor como se estivesse sozinho. Eras o tipo que fingia não ser com você quando lhe diziam verdades que não sentia vontade de escutar. Me sentia como tua mãe quando agia assim, mas não desistia. Eu me pergunto como foi que cheguei nessa condição pavorosamente triste de me importar até com teus pulmões (eles já nem devem existir mais, de tanto que fumas, oras!). Mais do que teus pulmões, todos os teus órgãos, nervos e tecidos. Não passávamos de dois indivíduos tentando encontrar pequenas alegrias em um mundo vazio. Cantávamos músicas repletas de saudades de um mundo que vivemos apenas dentro de nossas cabeças. Fazíamos um belo par no gênero não-é-nada-comigo, ignorando por completo o romantismo impregnado em cada beco dessa cidade cinza. Discutíamos sempre sobre isso. Você respirava essa maldita cidade poluída e descolorida. Eu, apesar de melancólica, detestava a cidade. Sentia-me demasiada comum, absorvida pelo seu jeito descompromissado, como parte de seus personagens sem vida que andam apressados de um lado para o outro.
Sempre tive ares de deboche, com uma pitada de descaso, mas a verdade é que sempre quis ser salva. Ter um labrador cor de mel. Uma casa na praia, talvez. Também não gostava de praia, sol e gargalhadas sem sentido. Conversamos sobre isso n’outro dia, quando você havia perdido sua xícara da sorte ou qualquer coisa parecida com alguma superstição que havia inventado para reclamar a semana inteira. Eu não sei o que eu quero. Todas as vírgulas tem uma curva acentuada demais ou reta demais. Penso que no fundo, não pertenço a lugar nenhum. Queria tanto me sentir parte de alguma coisa. Algo maior do que eu, como dizem os filmes americanizados. Você sabe, ou melhor, não sabe, porque nunca te contei sobre essas coisas. Não faz parte da minha face favorita, aquela da menina com sonhos iguais aos de todas as outras. No fundo, nós mulheres somos todas iguais e vocês homens são todos iguais. Todos inocentes e sorridentes, até que alguém bate com a porta na sua cara em uma noite chuvosa (porque sempre relaciono cenário chuvoso com tragédia?) e te faz acabar com os ouvidos atentos nas letras das canções em programas de fossa na rádio e perder o fôlego de tanto chorar.
Prometi para mim mesma que não seria nunca mais uma dessas pobres almas. Não importa se ele menciona poetas desconhecidos para me impressionar, ou se manda uma mensagem no meio da noite   me convidando para olhar a janela e ver o Sol nascer em silêncio, dividindo apenas a respiração do outro lado da linha. Decidi que não iria me entregar e ponto final! Não direi que depois de você mudei de ideia. Quero dizer, eu até posso ter mudado um pouco, mas, veja bem, é exatamente porque eu não espero nada de você. Nunca nos imaginei sentados juntos compartilhando silêncios, bebidas e comentários ácidos sobre conhecidos sem nomes. E olha só onde estamos agora, caminhando juntos para lugar nenhum. Você nesse jeito largado de quem ouve bandas britânicas só para passar o tempo, e eu despreocupada e neurótica, indagando se isso tudo é um sonho ou um grande buraco negro que está me puxando sem que eu perceba. Eu mal esperava por você, entende? Sei que isso tudo pode não passar de uma loucura da minha cabeça confusa, mas era exatamente disso que eu precisava. Alguém que não soubesse de nada e nem quisesse saber. Porque, no final, não importa. Sem ilusões de “Do que você gosta?” ou “Qual é sua comida favorita no mundo todo?”. Eu não sei responder, nunca soube. Eu não sei nem quem eu sou, rapaz. Não faço ideia nem se o que eu sinto por você acabará no próximo verão ou se durará todos os invernos da minha vida. Não sei nem se sinto alguma coisa ou se não passa da carência que me invade quando ouço músicas demais no sábado à noite. Agora você levantou da cadeira em que estava jogado e eu pensei que você até poderia deixar algumas notas na mesa e partir acenando com a mão vazia. Não duvido de nenhum acontecimento traumático que possa vir de você. Contigo, eu já percebi, é assim. Ou meu coração flutua, ou se afoga. Quis perguntar se não queria me segurar com sua mão vazia ou me guardar no seu casaco escuro. Você não foi embora.
Sentou-se à minha frente e me olhou de cenho franzido. Perguntei o quê houve. Sem resposta. Continua sua análise. Se pudesse ouvir a batida do meu coração, precisaria correr e desaparecer por um mês, tamanha a vergonha que sentiria. Diz que estou quieta. Só pensando, ou tentando pensar. Na verdade é mais uma crise de adulto que esqueceu de crescer, mas você não precisa saber. Estou corada? Bebi demais. E daí que mal bebi um copo? Cada ser humano tem seus limites. Sua presença me embriaga… O que é que estou pensando? É pior do que imaginava. Andar por aí? (Com você? Sozinha? Você não está raciocinando muito bem, garoto. Olha meu estado, estou quase fazendo uma cena dentro de um bar que eu nem sei como vim parar. Só atendi sua ligação e praticamente me materializei para te ver em tempo recorde, imagine andar por aí sem testemunhas. O que eu não seria capaz de fazer?) Está bem, vamos. Para onde? Lugar nenhum? Para qualquer lugar que você quiser, mas apaga esse cigarro. E daí que você já é crescido? Eu também sou e não saio com caras que querem perder os pulmões até o amanhecer. Agora sim. Sim, eu vou. Não, não estou com medo… Tenho porque ter medo? Não faço cara de criança medrosa coisa nenhuma! Bem, vamos então! Ou será um sonho, ou um erro. Garoto, você não faz ideia, já cometi erros demais. Tudo bem, te darei uma chance. Boa sorte para mim.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Dois copos de Saudade e Três de Descaso

Durante a madrugada fria e traiçoeira que me lembra seu calor, pensava em escrever-te verdades que em momento algum ousei dizer olhando em teus olhos. Quando passaste pela porta decididamente, provando-me que nada eras além de algo que se foi mas não sei vai de dentro de mim, escrevi. E o faço desde então. 
“Aquela garota forte e destemida que conheceste jamais existiu. Nada sou além de uma pobre infeliz que acredita em qualquer conto de fadas dito ao pé do ouvido numa noite de lua cheia. Decidi em uma dessas noites em que a gente deita pra dormir com as costas doendo de cansaço, mas comete o terrível erro de analisar o dia, depois a semana, depois as partidas e a vida - acreditando que era o caos em sua essência mais pura -, que foi a lua que me fez querer-te. Havia algo mágico naquele luar banhando teu rosto, naqueles dedos entrelaçados e nas promessas que fizeste. Ah, recordo-me bem, chamou-me de “meu anjo” e desde então senti realmente ser como um, visitando as nuvens num piscar de olhos. E seus olhos que miravam cada pedaço de mim como se tivessem sido criados apenas para admirar meu rosto corado. Lua cheia, cruel lua cheia. De tantos lugares para brilhar, havia de escolher justo suas feições de moço feito pra mim? Todas as noites, deitada na cama, deixo uma fresta da janela aberta para que a lua entre e peça-me perdão, mas ela não o faz. A lua não faz nada além de iluminar o suficiente para que recorde de tua mão tocando a minha. De todos os gestos, afagos e corpos colados, o que mais causa-me euforia foi seu aperto de mão no pôr-do-sol. Sentia-me tola, sozinha, prestes à entrar em uma ilusão. Queria que alguém, seja lá quem fosse, apertasse minha mão daquele jeito que os dedos dizem estou-aqui-com-você. E você o fez. Sem pressa, tocou minha mão e ali deixou a sua, acariciando parte de mim até então adormecida. Foi mágico sentir, em apenas um roçar de dedos, certezas de uma vida inteira. Naquela cena inocente, soube. Sabes o que soube, porque creio que soubesses também. Jamais disseste - ao menos, não naquele dia - mas até mesmo as crianças que aproveitavam seus últimos momentos felizes na praia antes do anoitecer enxergavam: Eis ali uma menina apaixonada. Você e a lua, unidos e matreiros que são, fizeram-me nada mais do que uma menina. O que dizias era lei. O que não dizias, tortura. Injusto era esse amor, com toda a certeza! Se pudesse, o tiraria de dentro de meu peito e o expulsaria de mim junto de tuas recordações com a lua. Mas não poderia. Não com tanta esperança que ele me entrega de bom grado. Esperava todos os jantares com a mesa posta para dois, tua chegada. Andava pela rua sorrindo para todos na esperança de encontrar-te na multidão. Como é possível amar ser agonia e ânsia ao mesmo tempo? Volte e responda-me todas as perguntas. Se quiser, não responda-me nada. Apenas volte”. Bobagem, dizia ao amanhecer relendo meu rascunho, quando o encanto escondia-se debaixo dos móveis. Eu só precisava virar garganta abaixo alguns goles de uma bebida forte o suficiente capaz de me fazer esquecer por alguns segundos enquanto sinto a garganta queimar. E lá vou em mais um dia de descaso, esperando a lua revelar novamente a saudade. 




Na parede da cozinha o ponteiro do relógio caminha calmamente, alheio à correria que causava e vidas que mudava em apenas um segundo. O olhava e desejava controlar os ponteiros à meu bel-prazer. Acelerar, voltar, até mesmo diminuir o tempo dos segundos. Visitar o passado e me libertar das amarraras que me fizeram ver-te partir. Sentir na pele as sensações daquela manhã chuvosa em que me destes a mão para atravessarmos a rua. Nada me fizeste além de entregar a mão, e senti como se me presenteasses com sua vida. Senti-me dona, finalmente, daquilo que tanto queria. Em poucos segundos, libertou-me a mão, mas permaneci sentindo seu toque por horas.
Se pudesse, retornaria ao momento em que te conheci, só para reviver nossa história. Discutiríamos novamente se a cor de seu casaco era vinho, ou vermelho desbotado, rindo ao final e decidindo que não passava de um casaco. Naquela noite não estava tão frio, e mesmo assim me ofereceu seu casaco-sem-cor, e aceitei - só para sentir seu cheiro de perto. Esqueceria de devolver-lhe, e voltarias admitindo que só emprestara para ter desculpa e me ver. E, como naquela vez meses atrás, agiria com descaso, apesar do pulso acelerado. Em meu íntimo temia desmaiar de contentamento, mas como moça orgulhosa que sempre fui, jamais saberias desta verdade.
Se soubesses que fora pela ausência desse comentário que partirias, jamais o deixaria guardado na gaveta do meu peito. Se soubesse que meus olhos não eram compreendidos em suas declarações à meia noite, traduziria pelos lábios. Nada mais eras do que tudo aquilo que minha vida pedia, e nada mais fui além de uma menina que temeu ter os sentimentos ridicularizados. Precisei ver-te partir para entender que sentimento, para fazer bem, precisa ser dito sem medo ou vergonha. Mas eu, tola, não disse. E você, imprudente, disseste na hora errada. Declarou-se antes do adeus, plantou em meu peito misto de agonia com ilusão de retorno. De todas as minhas recordações tristes, amargas e traiçoeiras, a de sua partida ainda é a que mais dói. O tempo parecia que sabia o resultado daquela conversa, o vento parecia tentar arrancar os telhados e me levar para longe, enquanto os trovões tornavam sua voz quase inaudível. Oh, doce tormento, eles o fizeram gritar. Não bastava dilacerar meu peito, precisava ser aos berros. Nos seus olhos, eu vi, pensará que estava enlouquecida de desespero, mas vi. Enxerguei vontade de dizer naquela sua voz rouca de quanto estás arrependido, que não passara de uma brincadeira e péssimo gosto. Mas como orgulhoso que és, expulsou-o e foi-se embora.
Agora, cá estou, olhando o relógio velho da cozinha, cheia de saudade. Revivendo nossa história todos os dias. Desejando, desta vez, acelerar o futuro, e ver-te cruzar meu caminho mais uma vez. E desta vez, juro-te, não permitirei despedidas.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Para Dormir Melhor


Já não durmo direito há mais de dois dias. Ao contrário do que pode-se pensar, a causa não é nenhum novo livro que anseio devorar o mais rápido possível. Apenas não consigo ocupar todo o espaço da cama que você deixou vago, e desaprendi a dormir sozinha desde que você chegou. Meu quarto virou um grande depósito de rascunhos, textos incompletos, palavras desconexas -, clichês adolescentes que me fazem atirar papéis amassados nas paredes e jurar desistir da caligrafia para sempre. E meia hora depois, como sempre, lá vou eu mais uma vez me debruçar sobre a mesa e rabiscar mais meia dúzia de parágrafos destinados ao nosso novo papel de parede. A cozinha está uma bagunça. Há pratos recém lavados empilhados no escorredor porque ainda não encontrei um centímetro de espaço nos armários - agora, território obrigatório de todos os copos, eu nem sabia que tínhamos tantos! Lembre-me de me livrar de alguns quando voltar. A toalha de flores indefinidas ainda está na mesa apesar da mancha de geleia que você fez minutos antes de sair - eu sei, eu sei, prometo que trocarei antes que volte. A sala se tornou minha nova biblioteca, com meus livros de cabeceira sobre a mesa de centro, já que agora sofro de insônia e peguei a mania de cochilar lendo ou assistindo alguma bobagem na tevê. Antes de pensar que a casa virou um campo de guerra, aviso que as roupas estão passadas e muito bem guardadas - exceto àquelas espalhadas pela cama -, mas pretendo guardá-las antes de dormir, então fique tranquilo.
Agora começou a sessão melancolia na programação musical e perdi o foco das notícias. A voz desconhecida canta quase sussurrando que só ele pode fazê-la feliz, mas parece que ele discorda. Deve ser triste sentir tanto amor por alguém, e esse alguém só te inspirar com a dor. Como é que se pode acreditar no amor assim? E como não ter esperança em que tudo irá melhorar com tantas outras vozes acompanhando mais milhares de alegrias? Ouvindo essas canções, lembro-me de você. Já tivemos nossa fase das canções tristes, das confusas, das felizes, e até daquelas que não entendemos bem, mas ainda nos fazia lembrar um do outro só por ter as palavras “ele e ela”. Creio que agora estamos naquele ponto indefinido, onde tudo está tão além do nosso conhecimento que não existe o certo e o errado, existe apenas a única coisa que podemos fazer. Veja bem, ninguém jamais se instalou em mim como você, e agora não sei o que fazer a respeito. Acredito que ser eu mesma já é o suficiente para você, o que me deixa ainda mais sem rumo. Depois de tantas máscaras, sombras, batons, vestidos que disfarçam minha pele pálida e saltos que uso para impressionar, aparece alguém que ri das minhas piadas sem graça e me ama de jeans, descalça e de cabelos presos. Qualquer mulher tem, no mínimo, o direito de apontar o dedo no seu queixo e perguntar quem é que você pensa que é para jogar todos os meus ensinamentos básicos pela janela e me abraçar como se o mundo estivesse prestes a ir pelos ares, e fazer com que ele realmente vá por alguns minutos. 
Cá estava eu informando o boletim doméstico diário e lá vem você em forma de canção tirar meu foco. Você sempre apronta dessas, mesmo longe. O relógio já marca quase duas da manhã, e ainda estou sem sono. Hora de vestir sua camisa velha - meu mais recente pijama -, e assistir um de nossos filmes. É na hora de dormir que a saudade mais dói. Olho para as pessoas lá fora e te imagino andando pela cidade, seus passos de homem sério contrastando com seu jeito de moço sorridente que encontro quando entra apressado pelos cômodos da casa, vistoriando a bagunça que fiz enquanto estava fora. Recebo seu olhar me dizendo que jamais terei jeito. Eu te respondo com minha melhor face inocente. E então você me abraça, e sorri e não me solta. A saudade evapora até sua próxima partida, quando ela voltará a me visitar. E então você me aperta, me brinca, me ama, me completa, e o mundo parece explodir e fazer sentido, tudo de uma só vez. Ouso imaginar que não existem outros como nós. Parecidos, talvez, mas nenhum como nós. Me pego virando de um lado para o outro no sofá tentando prestar atenção no filme mas me perguntando se seu corpo sofre de insônia como o meu quando está longe. Penso em tomar um chá, mas prefiro congelar no sofá e pensar em você. Quase sinto seu cabelo roçando no meu queixo, seus braços me apertando enquanto sussurra um boa noite abafado na curva do meu pescoço. Você resmunga que acabará sem camisas se eu decidir usar todas para dormir enquanto viajas. Eu sorrio e fecho os olhos. O tempo esfriou, mas estou aquecida. Você está perto, eu sinto aqui dentro, no quentinho do meu peito que surge quando te imagino. Adormeço feliz.