Eu te via fumar quase um maço inteiro ao meu lado. Dizia para parar, isso não faz bem à sua saúde, você bem sabe. Tu sacudias ligeiramente os ombros enquanto acendia mais um e olhava ao redor como se estivesse sozinho. Eras o tipo que fingia não ser com você quando lhe diziam verdades que não sentia vontade de escutar. Me sentia como tua mãe quando agia assim, mas não desistia. Eu me pergunto como foi que cheguei nessa condição pavorosamente triste de me importar até com teus pulmões (eles já nem devem existir mais, de tanto que fumas, oras!). Mais do que teus pulmões, todos os teus órgãos, nervos e tecidos. Não passávamos de dois indivíduos tentando encontrar pequenas alegrias em um mundo vazio. Cantávamos músicas repletas de saudades de um mundo que vivemos apenas dentro de nossas cabeças. Fazíamos um belo par no gênero não-é-nada-comigo, ignorando por completo o romantismo impregnado em cada beco dessa cidade cinza. Discutíamos sempre sobre isso. Você respirava essa maldita cidade poluída e descolorida. Eu, apesar de melancólica, detestava a cidade. Sentia-me demasiada comum, absorvida pelo seu jeito descompromissado, como parte de seus personagens sem vida que andam apressados de um lado para o outro.
Sempre tive ares de deboche, com uma pitada de descaso, mas a verdade é que sempre quis ser salva. Ter um labrador cor de mel. Uma casa na praia, talvez. Também não gostava de praia, sol e gargalhadas sem sentido. Conversamos sobre isso n’outro dia, quando você havia perdido sua xícara da sorte ou qualquer coisa parecida com alguma superstição que havia inventado para reclamar a semana inteira. Eu não sei o que eu quero. Todas as vírgulas tem uma curva acentuada demais ou reta demais. Penso que no fundo, não pertenço a lugar nenhum. Queria tanto me sentir parte de alguma coisa. Algo maior do que eu, como dizem os filmes americanizados. Você sabe, ou melhor, não sabe, porque nunca te contei sobre essas coisas. Não faz parte da minha face favorita, aquela da menina com sonhos iguais aos de todas as outras. No fundo, nós mulheres somos todas iguais e vocês homens são todos iguais. Todos inocentes e sorridentes, até que alguém bate com a porta na sua cara em uma noite chuvosa (porque sempre relaciono cenário chuvoso com tragédia?) e te faz acabar com os ouvidos atentos nas letras das canções em programas de fossa na rádio e perder o fôlego de tanto chorar.
Prometi para mim mesma que não seria nunca mais uma dessas pobres almas. Não importa se ele menciona poetas desconhecidos para me impressionar, ou se manda uma mensagem no meio da noite me convidando para olhar a janela e ver o Sol nascer em silêncio, dividindo apenas a respiração do outro lado da linha. Decidi que não iria me entregar e ponto final! Não direi que depois de você mudei de ideia. Quero dizer, eu até posso ter mudado um pouco, mas, veja bem, é exatamente porque eu não espero nada de você. Nunca nos imaginei sentados juntos compartilhando silêncios, bebidas e comentários ácidos sobre conhecidos sem nomes. E olha só onde estamos agora, caminhando juntos para lugar nenhum. Você nesse jeito largado de quem ouve bandas britânicas só para passar o tempo, e eu despreocupada e neurótica, indagando se isso tudo é um sonho ou um grande buraco negro que está me puxando sem que eu perceba. Eu mal esperava por você, entende? Sei que isso tudo pode não passar de uma loucura da minha cabeça confusa, mas era exatamente disso que eu precisava. Alguém que não soubesse de nada e nem quisesse saber. Porque, no final, não importa. Sem ilusões de “Do que você gosta?” ou “Qual é sua comida favorita no mundo todo?”. Eu não sei responder, nunca soube. Eu não sei nem quem eu sou, rapaz. Não faço ideia nem se o que eu sinto por você acabará no próximo verão ou se durará todos os invernos da minha vida. Não sei nem se sinto alguma coisa ou se não passa da carência que me invade quando ouço músicas demais no sábado à noite. Agora você levantou da cadeira em que estava jogado e eu pensei que você até poderia deixar algumas notas na mesa e partir acenando com a mão vazia. Não duvido de nenhum acontecimento traumático que possa vir de você. Contigo, eu já percebi, é assim. Ou meu coração flutua, ou se afoga. Quis perguntar se não queria me segurar com sua mão vazia ou me guardar no seu casaco escuro. Você não foi embora.
Sentou-se à minha frente e me olhou de cenho franzido. Perguntei o quê houve. Sem resposta. Continua sua análise. Se pudesse ouvir a batida do meu coração, precisaria correr e desaparecer por um mês, tamanha a vergonha que sentiria. Diz que estou quieta. Só pensando, ou tentando pensar. Na verdade é mais uma crise de adulto que esqueceu de crescer, mas você não precisa saber. Estou corada? Bebi demais. E daí que mal bebi um copo? Cada ser humano tem seus limites. Sua presença me embriaga… O que é que estou pensando? É pior do que imaginava. Andar por aí? (Com você? Sozinha? Você não está raciocinando muito bem, garoto. Olha meu estado, estou quase fazendo uma cena dentro de um bar que eu nem sei como vim parar. Só atendi sua ligação e praticamente me materializei para te ver em tempo recorde, imagine andar por aí sem testemunhas. O que eu não seria capaz de fazer?) Está bem, vamos. Para onde? Lugar nenhum? Para qualquer lugar que você quiser, mas apaga esse cigarro. E daí que você já é crescido? Eu também sou e não saio com caras que querem perder os pulmões até o amanhecer. Agora sim. Sim, eu vou. Não, não estou com medo… Tenho porque ter medo? Não faço cara de criança medrosa coisa nenhuma! Bem, vamos então! Ou será um sonho, ou um erro. Garoto, você não faz ideia, já cometi erros demais. Tudo bem, te darei uma chance. Boa sorte para mim.
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