sábado, 23 de março de 2013

De cada Dia

Não te enxergar no alto da colina causa pesadelos infantis em que um terrível monstro de capa negra vem me raptar no meio da noite. As luzes permaneciam acessa até o raiar do dia para manter os sonhos bonitos presentes. Escrevia que os poemas se perderam entre as dobras dos suicidas. Vivemos sobre os destroços de um mundo irreconhecível que só é lembrado em fábulas. Eu sinto gosto de sangue nos lábios e temo adormecer para nunca mais abrir os olhos. Essa histeria me adoece a ponto de morder a manga da camisa no delírio da febre. Pois que era te aguardar por um par de dias que essa insanidade me prensava na parede fria da cozinha. E ficava ali, as lágrimas e o corpo presos por uma força invisível que me impedia de correr, os dedos escorregando no liso do azulejo com detalhes em azul que escolhemos por lembrar doçuras planejadas na grama. Me sentia num constante filme de terror em que corria com meu pijama de flanela por toda extensão da casa pedindo uma ajuda que não viria. Eu, que era tão inconstante, tornava-me um animal acoado na ausência. Não ousei contar meus delírios porque você, preocupado que era, não teria um segundo de sossego, e teimoso que era, não o daria também à mim. Me aconselharam a fumar para engolir a ansiedade, mas só consegui uma baita crise de tosse. Então disseram para beber, e os próximos dias foram de uma tonteira e ressaca terríveis. No último dia, temi não conseguir mais abrir os olhos, doía-me tanto enxergar a luz que só via vultos. Tu bebias e ficava risonho e falante. Beber só me rendeu impropérios. Aderi aos calmantes. Uma pílula só e você dorme feito um anjo, dissera o farmacêutico. Me vieram logo com um tarja preta, que é pra sossegar até o meio-dia. Até que funcionou direito, nas suas limitações. É uma pena que a dose não venha com seu peito pr’eu fazer de travesseiro, nem sua respiração fraca na minha nuca. Eu até gostaria de sentir sua pele debaixo dos meus dedos, e ficar descendo e subindo as mãos nas suas costas pra aquietar seu jeito afobado. Até o travesseiro, tanta discórdia porque um sempre tinha mais espaço que o outro, já virou banalidade. Daria o travesseiro todo se você quisesse, só pra encostar a cabeça no lado esquerdo da tua costela e ouvir a taquicardia que te dou sem fazer nada. Lá pra segunda semana de medicamento, descobri que pensar no peso das suas pernas nas minhas é melhor que me dopar de tanta pílula. E então recordar da marca dos teus dedos nos meus livros mais bonitos, e sua loucura de me fazer tomar café só pra assistir a dança das cores no céu quando a noite volta a ser aprisionada do outro lado desse mundo. Quem diria do arrepio gostoso que dá no peito quando sussurras as falas dos filmes no ouvido. Fixo o olhar nas pedras da calçada até enxergar a ponta do seu sapato colada na minha sandália e sentir seu cheiro impregnar meus pulmões. Ouço um blues enquanto me espreguiço e te sinto bater os dedos no ritmo da música. Nosso encontro vai muito além do espaço físico. Só notei teus afagos silenciosos quando já não era possível estancar o sangue que esvaía do peito. Dizias aquieta, aquieta menina que estou em cada verso e curva que você dá nessa casa cheia de nós. Nossos nós viraram laços que amarrei no candelabro pra lembrar do teu alento que me acarinha enquanto a ausência está longe de terminar. Os pesadelos já não são constantes e os azulejos já não são carcereiros. Os olhos perdidos dos teus ainda causam um latejar nas têmporas à cada pôr-do-sol. Eles aguardam ansiosamente mergulhar no castanho que se esconde nos cílios. Pedi para as nuvens te avisarem para recordar meus caracóis no seu rosto quando for dormir, e te cuida como se minhas mãos estivessem afagando teu cabelo cor de breu, que você é meu calmante de cada dia. 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Sobre antônimos que se aliam para nos enlouquecer


Um querer perder a cabeça no travesseiro até não saber mais quem é ou de onde veio, se perder na rua durante o dia inteiro, fugir da rotina que detesta e das vozes que o desgasta. Tentar fazer o relógio correr pela força do pensamento para que volte para a toca e se esconda até a próxima alvorada. Aprender que o mundo não merece a inocência nos faz mergulharmos dentro de nós mesmos e preferirmos a morte da civilidade à perda do pudor.
O cansaço pesa os olhos. O corpo desfigurado sobre o colchão, mistura de mãos e pernas imóveis e flácidos, o lençol pesando como concreto. Nesses momentos incoerentes me vêem à cabeça teorias conspiratórias e soluções absurdas para problemas alheios. Costumava dizer que a confusão leva ao estado mais complexo do cérebro, outra ideia obtida enquanto os olhos passeavam pelos detalhes do teto. Há uma rachadura no canto esquerdo parecida com algo que ainda não sei o que é. Penso que se descobrir terei uma revelação. Você sabe minha mania de encontrar utopia no menor detalhe só para ter esperança de acreditar em fatos maiores do que a mente é capaz de pensar. Sempre acreditei na existência do além daquilo que todos nós e o ciclo vicioso em que estamos estagnados vemos. Justificativa para essas angustias passageiras, despertadoras de instintos suicidas. Estou na cama e não consigo dormir, o mundo transformou sonhos em pesadelos e impediu as pálpebras de se fecharem por mais de trinta segundos. Há manchas de tinta negra pela pele que não havia notado antes. Marcas de um mundo impregnadas nos nervos. Fujo do que existe nas minhas artérias e me vitimizo quando sou opressora. A insônia é o subconsciente revolucionário desdenhado pelos hipócritas.
O mundo somos nós.

sábado, 16 de março de 2013

No céu o meu destino rapta o seu

A noite é das estrelas e dos solitários. À ela entrego o pudor antes roubado pela letra da canção. Aprendi a sentir nas sombras, a única luz vindo da lanterna iluminando os contos. Luzes me cegam, meu bem, compreenda. Se expor para as luzes é desnudar o rosto da máscara talhada para o sentir não escorrer pela fresta. Só me permito os gritos ensandecidos à nós dois na calada da noite, cada sensação ouvida com clareza através do silêncio, ecoada em todos os cômodos. Escolhi a escuridão porque ela não julga meu amor mendigo, faminto por qualquer dose de afeto que me revire as entranhas. A noite nos escolheu porque o mundo não merece assistir nossas reviravoltas literais e abstratas. As mãos se perdem nas curvas e encontrá-las é um prazer negado aos que temem entregar-se  por completo. As surpresas tornam-se eternas quando apenas nós dois vemos o que há além dos dedos que esmagam a carne. Disseste que somos solidão à dois. Não há sentido repartirmo-nos com o mundo. Nosso amor é mais bonito à luz de velas.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Sobre o mesquinho amor do Mundo



As histórias se repetem com diferentes personagens. Novas dores despertam do mesmo pesar nascido da falência dos anseios escondidos em cada ceticismo. O romantismo perdeu a direção na exata curva em que encontrou meus pesadelos. Eu acredito nos sinais que o corpo curvado faz questão de exaltar. Ouço o ranger dos ossos dessa alma que carrega, o peso de mil vidas que cuida como se fossem presente e não o resto das sombras que grudaram nas bordas. Vejo tua dor como uma ferida exposta e a sinto com a solidariedade do público ao assistir uma tragédia grega, fascínio e horror mesclados naquilo que seria o principal, teu desalento. Odeio o sensacionalismo dos sentimentos. A verdade é que o mundo não sabe amar, mas a verdade não existe, é o que dizem. A realidade é uma via de mão dupla, mas a realidade está dentro dos seus olhos esperançosos e a esperança nos cega propositalmente para que não nos suicidemos antes dos 25. Sou subjetiva porque o ser humano é abstrato em todas as esferas. Não passamos de metades que tentam desesperadamente se encaixar em qualquer coisa capaz de nos livrar dessa loucura que é adormecer de braços dados com travesseiros. Somos apaixonados pela ideia do amor mais do que pelo objeto amado. Mesquinhos e sujos, infectados pela doença do mundo. Somos doentes em estado terminal em busca da salvação. 
Você se entrega ao veneno pensando que é vinho e não compreende a vida que se esvai sobre o vidro quebrado. Sentir em demasia é pecado aos olhos do mundo que te apedreja quando um vestígio de flor surge dentro do peito. O asco é glorificado e você se dói porque não entende o remorso presenteado à doçura grudada em teus dedos calosos. O sentir real é um mendigo sem dentes e faminto rejeitado na metrópole. Ele estende as mãos em busca de centavos ou mesmo um afago na ponta dos dedos para perceber que ele ainda existe e não é uma natureza morta, um pedaço de concreto pisado diariamente. Até que um dia alguém o enxerga além da roupa imunda e se aproxima, toca, levanta e carrega para casa. Então ele acorda. O sentir sonha e mora no coração daqueles que fecham os olhos e vêem além da rotina, além da memória real. Ele só confia naqueles capazes de criarem sua história à parte. E se você for esse alguém que se comove com o mendigo, o mundo te vê como ele. Você se atira no precipício e se entrega. Se dói porque a essência da alegria é a tristeza e tu prefere morrer a se poupar, porque não sentir é uma dor ainda mais profunda. E o mundo, ah, pobre mundo, não aceita nada além do que se pode ver. O concreto rasga as entranhas do abstrato até que não haja nada além do palpável. Mas o sentir não gosta do morno. Sempre existe uma entrelinha antes de cada vírgula e você sabe. Na tua testa há a palavra loucura escrita em vermelho mas não se importa, eles são incapazes de ver o que esconde sob a pele. O essencial está aonde ninguém vê. Sentir é a loucura fantasiada. Amar nesse mundo é ousadia capaz de levá-lo à pena de morte, e você adora cravar os pés e deixar marcas de sangue sobre o concreto para dizer que ali há muito mais além do cinza.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Sobre o sentido que não temos


Não disserto sobre as palavras frias que me causam calafrio. Nego para expurgar o gelo que toca a pele quente até que queimá-la como se fosse fogo. As paredes bem sabem a hipocrisia de cada passo despreocupado dado nas ruas de pedra. Caminho e faço meia dúzia de pedidos e ladainhas que não sei para onde vão ou de que parte me vem. Eu me perco em cada hora de solidão e transformo os tropeços em passos de dança. O teatro apenas começa quando a noite cai. As ruas tornam-se verdadeiros carnavais fora de época e sem previsão de término. Há quem veja sinais de embriaguez em minhas olheiras. Meus olhos estão constantemente fechados, ora ou outra isso ocasiona reprimendas desconhecidas e ignoradas. Eu te procuro em cada rua, e ao passar um par de horas, meus olhos cansados desistem e vão se fechando até que eu volte para casa, para então decidirem não se fecharem até amanhecer. Vez ou outra sou capaz de sentar na calçada e respirar fundo. Meus olhos te procuram em cada rosto e não te ver me dá vontade de parar no primeiro bar e me exterminar no álcool. Apenas você entende a insônia da espera,  aquela que faz  impossível desligar-se completamente por medo da campainha não ser ouvida. Tenho lá minhas insanidades e ansiedades. Tu entende todas. Entre tantas voltas, é sempre o seu olhar que meu cérebro procura reconhecer ao fitar desconhecidos.
Pedia em silêncio vem, vem e fica, fica mais, fica para sempre porque sozinha eu não consigo. Te enxergava do outro lado do vidro como uma criança olha as nuvens no céu, num misto de incompreensão e admiração, colava as mãos no vidro como se fosse capaz de quebrá-lo para encontrar o quente dos seus ombros nas palmas. Sentia ansiedade semelhante à de conhecer um lugar novo, contrastando ao aconchego de voltar para casa. Mas eu só te olhava com os olhos de quem não quer nada e fumava mais um maço. Tu me perguntava o que há e só ouvia respostas monossilábicas. Eu te procuro e quando encontro não quero que saiba do desespero contido na ausência. Pensar em tua partida aos poucos, um adeus sem carta, faz de mim um monstro orgulhoso incapaz de transmitir o estado deplorável oculto atrás do jornal lido no café. Tá tudo bem, eu dizia olhando para os lados como se procurasse qualquer coisa mais interessante do que seus olhos sacanas. Tua cara está cheia de promessas e é difícil fugir dos instintos que tuas mãos despertam. Eu me entrego e finjo que estou de passagem. Guardei o coração no bolso da sua jaqueta favorita e torci para que não o notasse até que fosse à lavanderia e eu estivesse trancada no quarto, o mais longe possível dos teus olhos que sabem tudo o que teimo em ocultar. Escrevi um par de palavras desconexas, como o fato de morrer por te amar e ainda assim preferir isso à vida, e o desejo de me perder com você num vinhedo na Itália ou me fazer de dama inocente numa cafeteria na Espanha, ou em qualquer lugar que tu quisesse me levar, nem que fosse para sentarmos às três da tarde naquele terreno baldio no meio do bairro e ficarmos nos olhando enquanto eu levo suas mãos de um lado para o outro, até que perguntem o que raios fazemos ali (eles não entendem, meu bem, eles nunca entenderão). Era preciso ter você por perto, mesmo que seja apenas para ficar olhando, olhando e olhando, como se o mundo ficasse mais silencioso em respeito ao encontro dos nossos olhos cansados. Aquele bilhete infantil foi a forma mais bonita de contar que é mentira, é tudo mentira esse pudor que me impede de arrancar a roupa com as luzes acesas e te deixar me ver inteira, porque apesar de tão esnobe e casual, eu preciso que você conheça cada pinta escondida sob o meu vestido. Veja através daquilo que oculto por zombaria ou vaidade. Enxergue através dos gestos que eu não consigo sem você. Essa é a coisa mais vulnerável que uma pessoa é capaz de dizer para a outra: eu não consigo sem você. Eu dizia cada vez que fechava a porta do quarto e o deixava a sós com teus delírios poéticos porque tu não sabe dialogar e criar ao mesmo tempo, eu te dizia quando marcava de caneta vermelha fotografias que me lembravam nós dois e te mostrava sabendo que recordaria quando fosse escrever algum conto. Falei abertamente enquanto cantávamos aquela do Chico. Eu quero ser tua Cecília, sussurrei pausadamente enquanto já adormecia para seu subconsciente absorver cada palavra como a maior declaração que minha falta de palavras pode dar. Você foi uma lareira acesa dentro do meu peito gelado e isso eu não posso esquecer. O transbordar mais importante fica guardado em algum canto perdido nos abismos. Vejo o amor como um segredo bonito. Te manter em silêncio é a forma mais bonita de dizer que eu te quero tanto que não ouso te dividir com o mundo lá fora. Eles não merecem sequer a dor contida nos teus parágrafos. Eu nos protejo dos pecados inconscientes que os seres humanos praticam. O mundo não merece tua inocência, meu bem. Nos ferimos suficientemente pelo excesso de zelo, para ousarmos permitir ao mundo apodrecer nossos alicerces. Somos docemente doídos, com as contrariedades que as palavras trazem quando unidas. Descarto os remendos porque eles estão presentes em cada membro e dispensam formalidades. Doer sempre fora uma das palavras principais do vocabulário, exatamente como sentir. Sentimos como se sentir fosse uma doença congênita, e talvez realmente seja. Até agora não encontrei enciclopédia capaz de nomear o que somos. Talvez sejamos exceção. Talvez sejamos tão banais que dispensa qualquer tentativa de explicação, são encontrados clones em cada esquina e o que conhecemos não precisa ser estudado (ou é exatamente por isso que precisa?). Solidão a dois nunca fez sentido até te conhecer. Agora, quem já não faz o menor sentido sou eu.

terça-feira, 5 de março de 2013

Nota de meus excessos, III.


A fala mansa, o olhar que não enxerga nada mas vê tudo. Seu estar em outros mundos e andar no caos de todos. O riso enjaulado entre os lábios rachados, o sorriso cínico. Quis dizer-lhe olha só, meu menino, olha só que engraçado, sua solidão se parece um pouco com a minha. Sabia que ouviria um riso curto, cético. A desesperança te acompanha a passos lentos e você nem nota. Eu moeria teu cinismo com minhas unhas roídas. Queimaria a desconfiança com a ponta do teu próprio cigarro. Te faria todas as noites olhar as estrelas e lembrar-se dos afagos. Eu te salvaria desse filme de terror repleto de demônios que se trancou para fugir de si mesmo. Ou entraria na casa assombrada para fugir com você. Mas eu te amo manco, meu menino. Meu fascínio se estende até as partes mais sombrias do peito e não há portas fechadas capazes de me salvarem dos teus braços. Me perdi nas tuas anotações insanas e só me encontro nas entrelinhas que escreves para apaziguar os excessos. Te busco nas curvas íngremes, meu menino. Sei que se esconde em locais inapropriados, como nas lágrimas dos inocentes e no cantar das multidões. Decidiu se esconder em minhas artérias. Eu me apaixonei pela tua dor.
Ouso contradizer todas as palavras anteriores. Você é capaz de me causar essas sandices. É bem verdade, meu bem, os antônimos visitam meu peito entre um amanhecer e outro. Você entende, tens meu eu dentro das costelas e não o deixa fugir. 

Residem partes belas debaixo da pele morna, pedaços que só nós conhecemos. Lembre-se deles quando as estrelas visitarem o breu do quarto. 
Me apaixonei pela tua humanidade… Ou seria a doçura apesar das cicatrizes? Tens me causado confusão. Será que foram os afagos? E o que sentir dos olhos, boca e mãos? E o furacão nas palavras? Já não sei aonde está o princípio do verbo, tudo tornou-se uma coisa só. 

Eu amei até seus suspiros incoerentes no meio da noite.
P.S.: Impeça a criação de outro bilhete e venha para que diga pessoalmente.
P.P.S.: Não se esqueça, é tudo sobre você. É tudo sobre nós dois.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Nota de meus excessos, II.

Se o mundo acabar, o samba não tocar, as letras forem vãs e as palavras descartáveis. Se a tristeza pesar, se derem uma rasteira e rirem do corte que o tombo fez no supercílio. Se a janela ranger e privar do consolo que é sonhar por meia hora todas as madrugadas. Se a melodia for oca e as canções tornarem-se mudas, a voz não sair e a literatura morrer. Se as têmporas não suportarem o latejar do crânio e respirar cansar os pulmões. Se viver doer por si só e existir doer ainda mais pela desistência implícita no ser. Se o cair da noite confirmar meus temores, meu bem, deixe-me te beijar, pode ser meu último ato nessa vida. 

Nota de meus excessos, I.


Aceito minha solidão com o vazio que ela traz na bagagem. Eu não sei chorar, mas choro. A dor de ser tanta coisa em coisa nenhuma e sentir-me menor ainda por não suportar a própria dor de me ser. Há um momento entre um abismo e o outro em que não aguenta mais e não querer parar. Estar em cima do muro que te impede de mudar o rumo e não lhe deixa prosseguir o seu. Então não se sabe de mais nada. Uma dor aguda no fundo da alma. Um estar só que enche os olhos de lágrimas só em lembrar como é ter alguém. Choro por mim, por todas as lágrimas caídas sem alguém que afague as pálpebras pesadas até que elas se fechem e renasçam no amanhecer. Pela solidão do domingo e a farsa nos sorrisos da segunda-feira. Choro porque não chorar é suicídio e já cansei de morrer três vezes ao dia. O telefone mudo diz mais do que os dias são capazes de ensinar. Eu não tenho ninguém, então deixo as lágrimas fazerem em mim o afago que peço de mãos que me negam. A solidão que me conforta é a mesma que me rasga. Estou me doendo inteira e é apenas o princípio.
P.S.: Espero que não compreenda sequer uma palavra do que lhe digo neste bilhete. Compreender significa conhecer. Eu não quero que você conheça o que é se doer a ponto de não sentir dor nenhuma, de só querer mergulhar nas águas salgadas que saem dos olhos e nunca mais sair da cama. Eu não quero nada disso para você. Deixe a dor somente para mim, está bem? Leia e me enxergue. Não me olhe, me enxergue! Apenas queria ser salva, compreende? Um afago seu poderia me salvar. Ou um olhar. Sou uma mendiga de sentimentos e faço o pouco durar semanas. O que quisesse dar, por menor que seja, já seria um passo longe do precipício.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Desvios


O que há de tão intrigante nos olhos que se devoram em antecipação ao final da noite?
Você morde o lábio distraído enquanto lê um dos livros comprados no início da semana. Eu observo o mexer dos seus pés largados no braço do sofá e me pergunto pela milésima vez, desde que te ouvi no interfone, o que é que te faz rodar a cidade por horas e parar na minha porta todas as vezes. Você diz que minha sala é o melhor sebo da cidade, então vem. Embora saiba que a real motivação bate de encontro às costelas, aceito a resposta para te fazer ficar. Meus braços tremem para te segurar, mas carinho em demasia te leva. Nosso relacionamento vive atirado pelas paredes, pairando nos ares. Não há certezas ou nomeações. Só há um pertencer sem dono, uma necessidade sem razão. Às vezes quem foge sou eu, no temor desse abstrato. Te assusta, eu bem sei, mas eu sempre volto para você.
Eu lhe imploro por respostas e só recebo desvios. Você me prende contra a parede e quem desvia sou eu. Que receio é esse que demonstra entre meu ombro e a clavícula? E qual o meu receito ao dedilhar os músculos da sua barriga? Você mergulha em mim como se quisesse se afogar e logo depois agarra a borda mais próxima. Não decide se quer morrer comigo ou apenas me ver desmanchar nas águas. Eu te empurro e o puxo para perto. Nos afastamos e corremos de volta um para o outro porque não há caminho alternativo senão o dos lençóis. Não temos nada que nos segure, exceto nós. Eu não vivo sem teus poemas no espelho do banheiro e você não vive sem meus ombros para afundar a cabeça e morrer para o mundo que existe além das janelas. Você é o mesmo trecho que releio antes de dormir e eu sou a bossa nova que escuta antes de fechar os olhos. As canções não dizem seu nome mas o deixa subentendido em cada frase que cita doçura. És doce e amargo, e por isso eu quis te matar dentro de mim. Era preciso fugir antes que fosse tarde, meu amor, mas você entrou pela porta antes que eu conseguisse trancá-la e agora estamos presos. Nunca sei se peço para partir ou se amarro teus pulsos à cama e não o liberto antes de jurar ficar até o fim dos tempos. 
Não ousamos dizer nada, apenas permanecemos. Não conseguimos ou queremos partir. Não há mordidas melhores que as tuas no meu ombro ao dizer bom dia e nem arranhões melhores que os meus nas tuas costas. Tu me pegou pelos braços, me marcou a alma, degustou cada pedaço de pele e tornou-me incapaz de desejar outros braços quando o sol se põe. É por isso que tu sempre esfrega os pés no tapete de entrada e eu apareço ensopada na tua porta toda noite chuvosa. Eu pergunto porque vens e recebo uma resposta debochada. Você pergunta porque vou e digo que quero fugir da solidão. Fingimos o desapego para ocultar o que se esconde atrás dos olhares, meu bem. Sentimos no rasgo, na cicatriz e na tristeza. Felizes somos em compartilhar a tristeza. Expulso teus temores enquanto limpa meus olhos vermelhos. Protejo teu coração em cada afago e salvas o meu em cada palavra. Meu coração é teu e você sabe, tens com ele cuidado perene. O sentir dispensa compreensão. Amor, desejo, adoração, necessidade ou desespero. Tão grande é que fica sem nome, perdido entre as folhas do dicionário. Temos dentro de nós o desejo da carne com a ternura do peito, um se escondendo no outro. Entre gritos e sussurros, sempre há um de nós batendo à porta.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Promessa

Você está com aquele olhar que confunde minha alma. Me encolho, mas continuo. Cruza os braços e sorri divertido, sua expressão me recordando aquela vez em que duvidou de que eu seria capaz de comer mais pedaços de pizza do que você. E eu, mais uma vez, aceitei o desafio. Ficamos em silêncio, um de frente para o outro. Bate a ponta do sapato velho no chão, clássico sinal de sua impaciência, enquanto brinco com o pingente, incapaz de prosseguir te olhando nos olhos. Porque sei que se o fizer, desistirei. É bem verdade, quando o assunto gira em torno de teu nome, me contento com restos, raspas, até mesmo alguns arranhões. Mas teu olhar dos finais de tarde me tira a força. Ele, que tanto me enchia de esperanças hoje é dono de minhas angústias. Você, que me enchia de carinho, hoje banha-me com medo. Mordo os lábios para reprimir a vontade de perguntar aonde foi que nos perdemos, se foi na curva do rio que passamos ou no alto da colina em que demos as mãos. Apenas recordo de não receber seu sorriso quando passamos por aquela ponte de madeira entre o sonho e a realidade. Você me olha sério. E eu, covarde demais para mirar-te nos olhos, foco a atenção em sua barba por fazer e sorrio sozinha. Eu queria te pedir para não ir embora. Eu queria te pedir para não me deixar ir embora. Eu queria dizer tantas coisas dessas que você não espera ouvir e tanto quero dizer, que todas as palavras ficam presas em minha garganta e sou capaz apenas de permanecer em silêncio te esperando adivinhar tudo de alguma forma mágica. Te dizia tanto com os olhos que as palavras tropeçavam umas nas outras e não passavam de olhos apertados e confusos. Queria que me dissesse para andarmos juntos na próxima chuva, um sinal de que não desapareceria antes que pudesse reconquistar esse seu sorriso que mais parece o símbolo do sarcasmo. Traçamos um caminho cheio de curvas íngremes e neblina capaz de fazer-nos cegos, mas com você ao meu lado não havia o medo de cair em algum buraco na mata ou tropeçar nas raízes das árvores. Com você ao meu lado eu não sentia vontade de desistir todas as noites e correr como uma criança assustada de volta ao começo por medo do que me espera no final. Agora, aqui estamos ocupando um cômodo com os olhos cravados no meio do nada e o peito quieto como se tivessem nos privado o direito de respirar. E há tanto à ser dito. Tanto a ser ouvido. Já que as vozes se acovardaram em nossas gargantas, que os olhos digam tudo e um pouco mais. Mas não consigo olhar-te nos olhos. Não consigo pois temo o que verei. Utilizo então o silêncio, e o peço para enviar-lhe que meus sinais vitais já falham e o pranto bate à porta. Não sei bem quanto durou aquela compreensão silenciosa - pareceram-se meses para mim, mas não passaram de minutos. Caminhei para a porta, dizendo banalidades para não perguntar se o veria de novo. Comentei que sua barba arranhava minha pele. Enquanto a porta se fechava, ouvi seu sussurro leve de que a faria antes de encontrar-me na manhã seguinte. Aquilo, para mim, havia sido uma promessa.