Falta a voz ao pé d’ouvido causando-me arrepios na espinha quando chega de surpresa com uma rosa vermelha recém colhida. O cheiro do perfume forte que usa apenas para me agradar. A tristeza mal disfarçada, os soluços fora de hora. A dor por amar demais e não saber se abraça ou afugenta o sentir. Tantos afagos que poderíamos ter enquanto assistimos o telejornal na meia luz da sala de estar. Mas seus ombros teimam em ficar distantes da minha cabeça que pende para o lado num cochilo sem travesseiro de gente. Noites com pernas entrelaçadas e pés aquecidos nas panturrilhas, desperdiçados por edredons solitários enrolados como uma capa protetora de saudade. Palavras que aguardavam o anoitecer para serem sussurradas, mortas na laringe por não serem atiradas aos seus ouvidos.
O sofá parece mais ranzinza e antipático, passei a evitá-lo com frequência. A cama tornou-se maior do que poderia imaginar, causa-me insônia toda essa grandeza. Minha sapatilha deixou de ter aquela deformação que seu sapato causava por estar sempre esmagando a parte do calcanhar. Tem mais espaço no guarda-roupa e isso me preocupa constantemente. Não me faltam roupas. Talvez um ou outro conjunto que admirei outro dia na vitrine, mas eu não quero preencher o vazio que você deixou, então deixo aquele espaço vago lembrando-me sua volta sempre que saio do banho e abro todas as gavetas.
Passei a ver fotografias antigas. Em uma, está piscando pelo flash enquanto ri de alguma piada infame. Em outra, sorri com o rosto colado no meu. A minha favorita é aquela em que está sozinho, sorrindo para mim, a fotógrafa. Meus olhos sentem falta do seu sorriso e tornaram-se um tanto quanto tristes e escurecidos. As borboletas no estômago me visitam de tempos em tempos, quando ouço sua voz nas mensagens da secretária eletrônica. Pergunta sempre se estou bem, e reclama por não ter resposta. E continuo sem te ligar. Só a voz não alivia a pressão no peito, amor. Eu te quero inteiro e você sabe.
Te envio um beijo à meia-noite em ponto para que lembre de mim no último suspiro antes de sonhar (quem sabe assim nos encontramos no inconsciente).
Eu gostava de viagens até conhecer você. Agora gosto de mãos dadas, beijos na testa e promessas exageradas.
Prometi à mim mesma não falar sobre saudade, mas você arrasta minha mente para onde desejas, e aqui estou a pensar no pedaço de paraíso que se esconde no seu corpo.
Sigo vivendo minha sina de esperar te ver cruzar a esquina do nosso café favorito com suas malas e meus pertences, você e seu peito meio amargo, meio ansioso. Meu amor em cada marca da sua pele, nas marcas de mordidas ansiosas no lábio inferior, o cenho franzido de ansiedade, os dedos estalados na esperada chegada.
Minha alma sente falta da sua, isso é tudo que precisa saber.