terça-feira, 20 de novembro de 2012

O Cômodo Vazio



Falta a voz ao pé d’ouvido causando-me arrepios na espinha quando chega de surpresa com uma rosa vermelha recém colhida. O cheiro do perfume forte que usa apenas para me agradar. A tristeza mal disfarçada, os soluços fora de hora. A dor por amar demais e não saber se abraça ou afugenta o sentir. Tantos afagos que poderíamos ter enquanto assistimos o telejornal na meia luz da sala de estar. Mas seus ombros teimam em ficar distantes da minha cabeça que pende para o lado num cochilo sem travesseiro de gente. Noites com pernas entrelaçadas e pés aquecidos nas panturrilhas, desperdiçados por edredons solitários enrolados como uma capa protetora de saudade. Palavras que aguardavam o anoitecer para serem sussurradas, mortas na laringe por não serem atiradas aos seus ouvidos.
Sinto falta das tuas orelhas frias mesmo no verão, e do seu pescoço sempre quente e pronto para esquentar meu nariz no inverno. Os ombros sentem falta dos beijos de boa noite e a cintura sente falta do aperto dos seus braços. As tardes esperam as gargalhadas despreocupadas e as noites aguardam ansiosas o cheiro da pizza de calabresa e a admiração pelo céu estrelado. O cinema continua passando filmes da moda que te fazem rir e me fazem chorar porque o clichê é meu calcanhar de Aquiles. A cafeteria da esquina ainda serve o melhor capuccino do (nosso pequeno, porém bom de viver) mundo (tomei um por você um dia desses, enquanto lia um dos livros esquecidos propositalmente, eu sei que foi um plano para que eu lesse, nem tente negar). Não aprendi a escrever mensagens pequenas e a geladeira está cheia de post-it para que eu não esqueça de fazer coisas como buscar a roupa na lavanderia ou deixar a bagunça que deixou intacta. Outro dia me perguntaram de você e eu segurei a angústia como uma boa menina crescida, se orgulharia de mim se estivesse lá para ver. MPB continua desbancando todas as novas canções internacionais, mas isso você já sabe.
O sofá parece mais ranzinza e antipático, passei a evitá-lo com frequência. A cama tornou-se maior do que poderia imaginar, causa-me insônia toda essa grandeza. Minha sapatilha deixou de ter aquela deformação que seu sapato causava por estar sempre esmagando a parte do calcanhar. Tem mais espaço no guarda-roupa e isso me preocupa constantemente. Não me faltam roupas. Talvez um ou outro conjunto que admirei outro dia na vitrine, mas eu não quero preencher o vazio que você deixou, então deixo aquele espaço vago lembrando-me sua volta sempre que saio do banho e abro todas as gavetas.
Passei a ver fotografias antigas. Em uma, está piscando pelo flash enquanto ri de alguma piada infame. Em outra, sorri com o rosto colado no meu. A minha favorita é aquela em que está sozinho, sorrindo para mim, a fotógrafa. Meus olhos sentem falta do seu sorriso e tornaram-se um tanto quanto tristes e escurecidos. As borboletas no estômago me visitam de tempos em tempos, quando ouço sua voz nas mensagens da secretária eletrônica. Pergunta sempre se estou bem, e reclama por não ter resposta. E continuo sem te ligar. Só a voz não alivia a pressão no peito, amor. Eu te quero inteiro e você sabe.
Te envio um beijo à meia-noite em ponto para que lembre de mim no último suspiro antes de sonhar (quem sabe assim nos encontramos no inconsciente).
Eu gostava de viagens até conhecer você. Agora gosto de mãos dadas, beijos na testa e promessas exageradas. 
Prometi à mim mesma não falar sobre saudade, mas você arrasta minha mente para onde desejas, e aqui estou a pensar no pedaço de paraíso que se esconde no seu corpo.
Sigo vivendo minha sina de esperar te ver cruzar a esquina do nosso café favorito com suas malas e meus pertences, você e seu peito meio amargo, meio ansioso. Meu amor em cada marca da sua pele, nas marcas de mordidas ansiosas no lábio inferior, o cenho franzido de ansiedade, os dedos estalados na esperada chegada.
Minha alma sente falta da sua, isso é tudo que precisa saber.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Pra não Dizer


Eu vivo entre o (sor)riso e a lágrima de quem ama. E como eu te amo, menino!

Tu me dói como uma ferida exposta. Te enxergo cruzar o portão com meu coração guardado no bolso. Teus passos fazem a cor se esvair do meu corpo. Antes era tudo tão florido e bonito. A alegria partiu dentro da tua mala e você nem reparou. Cada pedaço de mim está grudado nas tuas roupas e só me sobrou o corpo. Você não viu ou quis levar-me como lembrança. 

Imagino partes minhas te completando sem que saibas. Eu parti do teu lado, meu amor, e você não sabe. Eu sou uma bagunça escondida debaixo da sua cama, um pequeno defeito no meio do seu quarto impecavelmente limpo com cada virtude que regara desde menino. Se embaralha com as cartas enquanto tenta equilibrar seus cadernos debaixo do braço, eu corro para ajudar Te digo o canal em que passará o filme no qual havia se interessado. Lembro-te de tomar os remédios para dor insônia e escrever e-mail para seus pais. Não esqueça da visita que prometeu. Sua mãe conta os dias para fazer seu almoço predileto. Eu conto as horas que passaram desde que se foi, antes mesmo de partires.

Perdoe-me. Perdoe-me, meu amor. Eu só sei falar sobre saudade e partidas porque eu te vejo ir embora todos os dias. Não ouso te ver arrastando sua poltrona no carpete da sala e se desculpando pela milésima vez por ter cochilado no meio do filme. Sonho com o dia em que trará as malas e dirá que de lá não sai, que de mim não sai. Mas o pesadelo quebra as janelas e apaga as luzes. A melancolia chuta os armários até o amanhecer e me impede de dormir. Os dias são chuvosos já faz tempo. Eu engoli as nuvens para que o temporal não chegasse na tua porta. Talvez seja minha natureza egoísta querendo a tristeza apenas para ela. Talvez seja porque teus olhos angustiados me doam mais que a própria angústia.

Fecho os olhos para não te ver parado à minha frente, temendo que tudo não passe de um sonho tão bonito que causará minha ruína quando o despertador tocar. Você é meu coma induzido e eu não quero abrir os olhos para a realidade que é viver sem tua pele roçando na minha. Eu já me perdi faz tempo. Nunca fui inteira. Você me encontrou. Eu posso me perder, mas não posso perder você. Sou de meias palavras e não te dou motivos suficientes para balançar tranquilo na rede. Eu pioro tua insônia e até causo tuas dores de cabeça com a solidão que me habita o peito. Detesta minha mania de virar as costas para o que sinto por medo do amor. Mas eu fico de frente para você. Cravo meus olhos nos teus e não mudo o rumo. Faço promessa absurda e cumpro. Eu gosto da noite, de sorrisos e de você. Eu faço a noite nossa, dos seus sorrisos, os meus, e você, eu. Então fica. Mais um pouco. Para o jantar. Para dormir melhor. Para desvendarmos alegrias na manhã de domingo. Para alegrarmos todas as manhãs. Fica. Fica pra sempre. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Roteiro Repetido


Eu te esperarei até nas noites sombrias.

Não sente o coração há dias, mas ele está batendo desesperado. Sabes que está. Pobre moço que sente demais, fadado a repetir a história. Alguém o desperta de repente. Se encanta com a quentura que dá dentro do peito. Esse negócio que esquenta, esquenta, até que esteja em brasas. Parece doença, só que pior. Doença tem tratamento, cura, esperança. Essa brasa só aprendeu a queimar. É traiçoeira, a cretina. Disfarça que se foi, mas continua ali. Calada. Esperando a recaída do pobre rapaz. 


“O que se faz numa situação dessas, Zé?”, perguntou o moço, sentindo-se anos mais velho do que realmente era. Amor não deve ser assim, ele pensava enquanto dormia sozinho na bagunça que virou o quarto. Pegou-se respondendo a si mesmo em seu monólogo com Zé-Ninguém. “Acreditamos, pois não há nada mais para fazer”. 



Recordou-se daquilo que fez após encontrá-la. Fechou os olhos e rogou por favor, por favor, que esta vez seja diferente. Jurou não se entregar nunca mais, mas o fascínio se entregara por ele.

“A mulher, como veio, se foi. Na noite. E nem era a noite feia em que se vê nos filmes. O céu estava estrelado, a Lua iluminava mais que os postes da rua, se é que podemos dizer que essas lâmpadas trazem claridade para alguém. Não era como aquelas noites sombrias e chuvosas que nos fazem sentir num filme de terror adolescente. Nessas noites, sim, já esperamos desgraça. Eu nem estava preparado! Quem está preparado para o adeus em uma noite como essa? Ou em qualquer outra noite? 
Um bilhete. Nem uma mísera carta. Ah, que desapego. Não sabia se xingava ou invejava tanto desprezo. A desgraçada nem levou tudo, Zé. Deixou aquele cheiro indefinido por todo canto, sabe? Aquele cheiro que se usa para marcar presença, e na verdade nem é um cheiro. É mais uma aura dela. Eu sou ruim para definir essas coisas. Só sei que ela está por toda parte! Deixou também um livro gasto de tanto ler. Ela havia me dado, mas lia mais do que eu. ‘Dava esperança’, ela dizia. Me deu um livro sobre esperança e depois arrancou todo o resto de mim. Que me desse uma carta decente de adeus para me dar o que pensar! É um teste em que já fui reprovado tem tempo. Nem beber eu consigo mais! Tenho medo de vê-la passar pela rua e não perceber por estar tentando não desmaiar no meio da calçada. Comer, então, nem se fala. Lembro sempre dela com aqueles lábios franzindo enquanto dizia que eu só comia ‘produtos pouco saudáveis’, como uma condessa perdida no futuro ou algo assim. Odiava aquele ar superior que ela fazia enquanto tentava me ensinar o que não queria aprender, mas adorava aqueles lábios traiçoeiros. Veja bem, Zé. Agora que ela se foi, me tornei quem ela queria. Isso lá é justo? Estou esperando que ela volte, diga que sou o cara errado, e se perca em mim de novo porque meu erro dá certo com ela”.

Dá saudade, dá tanta saudade. Nostalgia que vem e passa. Dor que vem e fica. Carência que ninguém tira. Os afagos são poucos para o que precisa. Os arranhões são muitos para o corpo que tem. Caminha, arrogante, altivo. Um valente cavaleiro sem alazão. Se entrega ao descaso. Faz dele amigo ordinário, que vem e vai quando bem lhe convém. Um dia, finge amar outras, n’outro, sente repugnância de si mesmo por renegar a única mulher capaz de fazê-lo amar e pensar que outras tomariam seu lugar. “I don’t care” está colado em seus lábios, como um mantra. Um desespero mal contido. But I don’t care, so whatever… Até ela voltar. Então acontece tudo de novo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Vendo sem (te) Ver


Eu sou o clichê do sorriso escondendo lágrimas, à espera de alguém que enxergue meu medo de ser feliz demais, e me obrigue a ser porque é preciso deixar o depois para depois. Uma cética desejosa que apareça quem destrua os ideais racionais e afugente as certezas. Transformei-me em rocha sensível como cristal. Ouço pessoas em calçadas dialogando sobre o que não conhecem entre um trago ou outro em cigarros baratos, expulsando de dentro de si teorias sobre desconfiança válida ou desapego inteligente, poluindo meus ouvidos como a fumaça que sai com as frases poluem meus pulmões. Eu acreditava neles, mas negava. Entre andar de bar em bar tentando preencher o vazio existencial e molhar o travesseiro como uma criança assustada com as sombras da parede, eu escolho me afogar em lágrimas.
Eu tenho medo de me doer, mas queria sentir. Desesperadamente. Como queria! Mas uma embriagada cheirando nicotina não atrai destino bonito. Meu moço dos olhos cor de mel não sorriria ao me encontrar patética e trôpega. E, céus, como quero vê-lo sorrir! Adormeço com seu sorriso de encontro ao meu rosto. Passo os dedos pelo espaço na cama como se pudesse sentir sua pele firme através dos lençóis. Ele virá para ouvir o palpitar do meu peito e saberá que é só para ele. Eu também sei gargalhar leveza, brincar de não pisar nas linhas da calçada, encostar no muro e dar aquele suspiro seguido de sorriso que vejo nos filmes. Só preciso dele para me ensinar. Parte de mim devolve em sarcasmo. Pesadelos recordam que não conheci a frieza ao acaso. Tropeços fizeram de mim a sabotadora de felicidade que cansada e só se martiriza por discar tantas vezes o número errado. 
Nada sei, mas eu te sinto. Somos dois implorando por alegrias, sejam grandes ou pequenas, temendo que a vida as esconda assim que estendermos as mãos. Eu sei, meu bem, não preciso tocar seus braços para sentir a tensão em cada músculo, o desejo dos afagos que não ousamos pedir, o brilho dos olhos que insistimos em fechar. Eu me afundarei em agonia só para ver se você me faz ver graça nessa vida. Aceito a tristeza pensando em te encontrar expulsando toda a escuridão dentro de mim. Não passo de uma hipócrita que rotula-se com o ceticismo, escondendo a esperança de esbarrar no teu caminho. Tão iguais, com todo esse receio e toda essa vontade. Tanta vontade de jogar a certeza fora e amar sem pensar, sem fugir. Só amar, com tudo o que o amor traz consigo. Disseram tanto sobre esse bendito amor (até o chamaram de maldito, veja só!). Quero contar-lhe tudo, meu menino. Façamos nossa própria definição desse matreiro, o amor.