Já não durmo direito há mais de dois dias. Ao contrário do que pode-se pensar, a causa não é nenhum novo livro que anseio devorar o mais rápido possível. Apenas não consigo ocupar todo o espaço da cama que você deixou vago, e desaprendi a dormir sozinha desde que você chegou. Meu quarto virou um grande depósito de rascunhos, textos incompletos, palavras desconexas -, clichês adolescentes que me fazem atirar papéis amassados nas paredes e jurar desistir da caligrafia para sempre. E meia hora depois, como sempre, lá vou eu mais uma vez me debruçar sobre a mesa e rabiscar mais meia dúzia de parágrafos destinados ao nosso novo papel de parede. A cozinha está uma bagunça. Há pratos recém lavados empilhados no escorredor porque ainda não encontrei um centímetro de espaço nos armários - agora, território obrigatório de todos os copos, eu nem sabia que tínhamos tantos! Lembre-me de me livrar de alguns quando voltar. A toalha de flores indefinidas ainda está na mesa apesar da mancha de geleia que você fez minutos antes de sair - eu sei, eu sei, prometo que trocarei antes que volte. A sala se tornou minha nova biblioteca, com meus livros de cabeceira sobre a mesa de centro, já que agora sofro de insônia e peguei a mania de cochilar lendo ou assistindo alguma bobagem na tevê. Antes de pensar que a casa virou um campo de guerra, aviso que as roupas estão passadas e muito bem guardadas - exceto àquelas espalhadas pela cama -, mas pretendo guardá-las antes de dormir, então fique tranquilo.
Agora começou a sessão melancolia na programação musical e perdi o foco das notícias. A voz desconhecida canta quase sussurrando que só ele pode fazê-la feliz, mas parece que ele discorda. Deve ser triste sentir tanto amor por alguém, e esse alguém só te inspirar com a dor. Como é que se pode acreditar no amor assim? E como não ter esperança em que tudo irá melhorar com tantas outras vozes acompanhando mais milhares de alegrias? Ouvindo essas canções, lembro-me de você. Já tivemos nossa fase das canções tristes, das confusas, das felizes, e até daquelas que não entendemos bem, mas ainda nos fazia lembrar um do outro só por ter as palavras “ele e ela”. Creio que agora estamos naquele ponto indefinido, onde tudo está tão além do nosso conhecimento que não existe o certo e o errado, existe apenas a única coisa que podemos fazer. Veja bem, ninguém jamais se instalou em mim como você, e agora não sei o que fazer a respeito. Acredito que ser eu mesma já é o suficiente para você, o que me deixa ainda mais sem rumo. Depois de tantas máscaras, sombras, batons, vestidos que disfarçam minha pele pálida e saltos que uso para impressionar, aparece alguém que ri das minhas piadas sem graça e me ama de jeans, descalça e de cabelos presos. Qualquer mulher tem, no mínimo, o direito de apontar o dedo no seu queixo e perguntar quem é que você pensa que é para jogar todos os meus ensinamentos básicos pela janela e me abraçar como se o mundo estivesse prestes a ir pelos ares, e fazer com que ele realmente vá por alguns minutos.
Cá estava eu informando o boletim doméstico diário e lá vem você em forma de canção tirar meu foco. Você sempre apronta dessas, mesmo longe. O relógio já marca quase duas da manhã, e ainda estou sem sono. Hora de vestir sua camisa velha - meu mais recente pijama -, e assistir um de nossos filmes. É na hora de dormir que a saudade mais dói. Olho para as pessoas lá fora e te imagino andando pela cidade, seus passos de homem sério contrastando com seu jeito de moço sorridente que encontro quando entra apressado pelos cômodos da casa, vistoriando a bagunça que fiz enquanto estava fora. Recebo seu olhar me dizendo que jamais terei jeito. Eu te respondo com minha melhor face inocente. E então você me abraça, e sorri e não me solta. A saudade evapora até sua próxima partida, quando ela voltará a me visitar. E então você me aperta, me brinca, me ama, me completa, e o mundo parece explodir e fazer sentido, tudo de uma só vez. Ouso imaginar que não existem outros como nós. Parecidos, talvez, mas nenhum como nós. Me pego virando de um lado para o outro no sofá tentando prestar atenção no filme mas me perguntando se seu corpo sofre de insônia como o meu quando está longe. Penso em tomar um chá, mas prefiro congelar no sofá e pensar em você. Quase sinto seu cabelo roçando no meu queixo, seus braços me apertando enquanto sussurra um boa noite abafado na curva do meu pescoço. Você resmunga que acabará sem camisas se eu decidir usar todas para dormir enquanto viajas. Eu sorrio e fecho os olhos. O tempo esfriou, mas estou aquecida. Você está perto, eu sinto aqui dentro, no quentinho do meu peito que surge quando te imagino. Adormeço feliz.
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