Eu te esperarei até nas noites sombrias.
Não sente o coração há dias, mas ele está batendo desesperado. Sabes que está. Pobre moço que sente demais, fadado a repetir a história. Alguém o desperta de repente. Se encanta com a quentura que dá dentro do peito. Esse negócio que esquenta, esquenta, até que esteja em brasas. Parece doença, só que pior. Doença tem tratamento, cura, esperança. Essa brasa só aprendeu a queimar. É traiçoeira, a cretina. Disfarça que se foi, mas continua ali. Calada. Esperando a recaída do pobre rapaz.
“O que se faz numa situação dessas, Zé?”, perguntou o moço, sentindo-se anos mais velho do que realmente era. Amor não deve ser assim, ele pensava enquanto dormia sozinho na bagunça que virou o quarto. Pegou-se respondendo a si mesmo em seu monólogo com Zé-Ninguém. “Acreditamos, pois não há nada mais para fazer”.
Recordou-se daquilo que fez após encontrá-la. Fechou os olhos e rogou por favor, por favor, que esta vez seja diferente. Jurou não se entregar nunca mais, mas o fascínio se entregara por ele.
“A mulher, como veio, se foi. Na noite. E nem era a noite feia em que se vê nos filmes. O céu estava estrelado, a Lua iluminava mais que os postes da rua, se é que podemos dizer que essas lâmpadas trazem claridade para alguém. Não era como aquelas noites sombrias e chuvosas que nos fazem sentir num filme de terror adolescente. Nessas noites, sim, já esperamos desgraça. Eu nem estava preparado! Quem está preparado para o adeus em uma noite como essa? Ou em qualquer outra noite?
Um bilhete. Nem uma mísera carta. Ah, que desapego. Não sabia se xingava ou invejava tanto desprezo. A desgraçada nem levou tudo, Zé. Deixou aquele cheiro indefinido por todo canto, sabe? Aquele cheiro que se usa para marcar presença, e na verdade nem é um cheiro. É mais uma aura dela. Eu sou ruim para definir essas coisas. Só sei que ela está por toda parte! Deixou também um livro gasto de tanto ler. Ela havia me dado, mas lia mais do que eu. ‘Dava esperança’, ela dizia. Me deu um livro sobre esperança e depois arrancou todo o resto de mim. Que me desse uma carta decente de adeus para me dar o que pensar! É um teste em que já fui reprovado tem tempo. Nem beber eu consigo mais! Tenho medo de vê-la passar pela rua e não perceber por estar tentando não desmaiar no meio da calçada. Comer, então, nem se fala. Lembro sempre dela com aqueles lábios franzindo enquanto dizia que eu só comia ‘produtos pouco saudáveis’, como uma condessa perdida no futuro ou algo assim. Odiava aquele ar superior que ela fazia enquanto tentava me ensinar o que não queria aprender, mas adorava aqueles lábios traiçoeiros. Veja bem, Zé. Agora que ela se foi, me tornei quem ela queria. Isso lá é justo? Estou esperando que ela volte, diga que sou o cara errado, e se perca em mim de novo porque meu erro dá certo com ela”.
Dá saudade, dá tanta saudade. Nostalgia que vem e passa. Dor que vem e fica. Carência que ninguém tira. Os afagos são poucos para o que precisa. Os arranhões são muitos para o corpo que tem. Caminha, arrogante, altivo. Um valente cavaleiro sem alazão. Se entrega ao descaso. Faz dele amigo ordinário, que vem e vai quando bem lhe convém. Um dia, finge amar outras, n’outro, sente repugnância de si mesmo por renegar a única mulher capaz de fazê-lo amar e pensar que outras tomariam seu lugar. “I don’t care” está colado em seus lábios, como um mantra. Um desespero mal contido. But I don’t care, so whatever… Até ela voltar. Então acontece tudo de novo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário