sábado, 22 de dezembro de 2012

A Falta do Sorriso


Fechava meus olhos cansados e era seu rosto que se formava entre as manchas na escuridão. Não ousava abri-los, para que não desaparecesse como fumaça entre as frestas. O amanhecer demora e sem ele torna-se insuportável respirar. Permaneço inerte abraçada ao travesseiro com os olhos entreabertos para te ver entre sonho e realidade. Espero o dia terminar e ele teima em não começar. A ansiedade da volta é maior que a dor da espera, meu bem. O fim se aproxima e com ele seu sorriso voltará a iluminar a casa. As correntes presas em meus punhos não passam de incômodo passageiro no cárcere úmido do quarto solitário. Sua camisa gasta que tanto acompanhou os lençóis em noites vazias regadas à garrafas de vinho branco está jogada na cômoda porque hoje é noite de cravar as unhas na pele. Os discos que antes tomavam a sala estão guardados porque hoje é dia de apresentação ao vivo. A tevê fora desligada porque o único semblante que eu quero hoje é o seu ao abrir a porta. Os bilhetes na geladeira foram rasgados e jogados no lixo porque hoje é dia de esquecer as ocupações. Me livrei de toda parte secundária para que você caiba inteiro na noite.
O Sol já partiu e o relógio diz a cada batida do ponteiro que você também tem pressa e logo vem. Os dedos batem impacientes no braço do sofá até o estalo de passos no assoalho de madeira anunciar sua chegada. Talvez algum dia eu consiga dizer-lhe exatamente o misto de desespero e prazer que senti ao olhar para a porta. A chave nunca havia demorado tanto para destrancar a porta.
Eu toco seu rosto, você toca o meu. A voz que tanto queria ouvir tornou-se desnecessária assim que os olhos se encontraram. Era capaz de sentir o amor acarinhando a pele que você apertava como se tivesse medo que eu desaparecesse. Não era mais sonho, meu bem. Eu não diria adeus quando os olhos abrissem e você sabia. O ponteiro fez silêncio pela primeira vez em semanas. A casa calou enquanto o sentir dizia tudo. E assim ficamos. Imersos no mundo em que jamais deveríamos ter saído, onde seu corpo jamais se separa do meu. Eu tropecei nos teus calcanhares só para me encontrar nessa vida, meu bem. O destino entrelaçou teus dedos nos meus e fez de nossos corações um só sem que nos déssemos conta. Você sorriu. Eu sorri. Você me amou. Eu te amei. Suas terminações nervosas começavam onde terminavam as minhas. A vida se autodestruía em sua ausência e se reconstruía assim que sua mão girava a maçaneta da porta porque você sempre me quis inteira apesar dos remendos.
Pensei em dizer tanta coisa, bobagens diárias, declarações ardentes, frases hollywoodianas. Permaneci calada. É no silêncio que dizemos o que precisamos, você falava entre contos e histórias lidas na cabeceira da cama. E no silêncio eu disse tudo. A saudade agora parece não haver doído tanto assim e os dias talvez não estivessem tão lentos. A vida não é tão cruel agora que estou sentindo seu coração na palma da mão que está no seu peito. Está na minha mão agora, quis dizer. Mas não foi preciso, você sabia. Aos poucos foi diminuindo a euforia. O tempo da espera passou, meu amor. O sofá agora abriga dois corpos que mais parecem um só. Seus braços tomam meu corpo num abraço que deveria durar para sempre. Os lábios beijam toda a pele que conseguem alcançar. As chegadas me lembram todas as vezes que não importam as partidas, nos reencontraremos. A parte de um está cravada no outro. Mesmo que estejamos perdidos, meu bem, saberemos voltar.

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