O relógio marca 14h12. Estou firme entre os lençóis. A cara amassada de encontro ao travesseiro. Tem seu cheiro, diria em outra época. Tem meu cheiro, digo hoje. A mistura de perfume com suor feminino já conhecidos por nós. Mas nós não existe. Existe eu. Mas eu deixei de existir faz tempo. Existem dizeres afogados na laringe que faço questão de engolir. Tem gosto de fel.
Passaram seis meses e parecem seis minutos. Li certa vez que andamos numa estrada, essa da vida. Falamos sempre sobre ela e seus tropeços, espinhos, curvas, caminhos íngremes, pontes de madeira velha e todas as metáforas para nomear dificuldades. Eu caí do precipício e só senti quando estava entre as pedras e a água do mar. Esperei que viesse me salvar, qualquer humano ou criatura que me visse entre os escombros de mim mesma. O ser humano, por mais só que seja, sempre aguarda por ajuda, seja de quem for. É nossa forma de nos aproximarmos da humanidade e renegar o animal sujo e degradante que cultivamos desde o berço sem saber, gostava de pensar. Até hoje, continuo a esperar.
São 14h37. Estendo minha visita ao colchão. Na geladeira tem uma garrafa de whisky doze anos que demoraria mais tempo para pagar do que beber. Foi um presente de quem não sabe meu horror à bebida. Eu rio embriagada sem uma gota de álcool no sangue por receber presentes de desconhecido mas não ter ninguém disposto a me resgatar. Quero virar a garrafa até não sentir o rasgo descer à garganta. Até não sentir nem à mim. Mas beber para afugentar a tristeza, por si só, é triste. Corroer a alma é suicídio e eu imploro ajuda. Eu não quero esquecer a tristeza com mais tristeza. Eu não quero levantar estancando a dor e deitar sangrando. Me escondo entre os lençóis.
Tem calmaria mais barulhenta que multidão, meu bem. E eu me sentia em pleno show de rock dos anos oitenta. Está cheio de pessoas vazias, diriam os poetas. Não. Está cheio de seres ainda mais cheios, exorcizando fantasmas juntos em refrões repetidos dentro do carro, do ônibus, das ruas, encontrando-se num único ponto da cidade. Eles gritam uma vez, duas, três. Sorriem para a noite. Os dentes brilhando de encontro às luzes do palco. Ninguém vê, mas todos sentem os peitos jorrando. Por horas, são uma nação, o mesmo ideal desconhecido. Os mesmos hinos.
Eu não falo sobre despedidas. Eu falo sobre passar o dia desamparada na cama e não ouvir o barulho do telefone e uma voz do outro lado da linha dizendo: “Escuta, eu tô sem tempo mas precisei ligar, você está bem?”. Eu diria tudo. Juro que diria cada palavra que surgisse na ponta da língua. Não faria sentido, mas diria. Porque o valor de quem ligasse seria maior do que a loucura de tentar ser só e junto ao mesmo tempo. Ou não diria nada. Há dias em que estamos tristes, só por estarmos tristes. Viver pesa e gasta os joelhos. Ser só ocupa todo o espaço do corpo, da cama e do quarto.
Tem quem diga que quando tu deixas de viver, já está morto à muito tempo e não sabia. Eu morri e não fui enterrada. Estou morta e ninguém notou.
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