quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Utopia


O calendário marca a data do encontro, mas desconhece a primeira vez que os olhares se cruzaram. O encantamento não provém do acaso, era o que pensava entre madrugadas. Você anda inquieto pela cozinha e enxergo outro alguém entre tantos que habitam seu corpo. Tens tantos seres em um só que não ouso incomodá-lo. Me afetam todos. Eu não me declaro sobre o amor por medo de lhe ver entrando com a bagagem dentro de um táxi na manhã seguinte. Eu não falo sobre sentir porque sentir é doído e você tem a alma pesada demais para se sobrecarregar com a dor do meu afeto. Eu não falo sobre nada com os lábios porque palavras são minha vida e você é capaz de tirá-las com um único afago, posso perdê-las para sempre colocar no lugar sem pensar e sua partida então será a minha.

O cheiro do café vem da cozinha e faço uma careta de desgosto. "Eu quero vinho". "Não gosta de vinho". "Eu não gosto de vinho mas quero me embriagar". "Não quer, não gosta de ressaca". "Estou com ressaca da vida". "O café vai esfriar". "Wisky é muito forte e cachaça é desespero e cerveja é desapego. Vinho é confiança". Estou desesperada mas quero soar equilibrada. Me jogaste no olho do furacão mas não quero que saiba. Outro dia disse que não gosto de me entregar e admito ser verdade. Não digo em voz alta, só para mim, como aquelas utopias dos filmes. Você acende um incenso comprado na loja hippie da esquina. Disse que é bom para meditar ou qualquer coisa assim. Eu quero um cigarro. Diz que eu não fumo e respondo que agora irei fumar. Peço mais uma vez seu cigarro e não tenho resposta. Você some no corredor e a atuação desmorona por falta de platéia. Estou tentando ser alguém que não sou e você sabe. Sou uma covarde, mas isso guardo só para mim.

Você cola na porta do quarto um pedaço de papel rabiscado com sua letra preguiçosa me dizendo para deixar de fugir porque me entreguei já faz tempo e só eu não havia notado. Suas roupas já bagunçam o quarto junto das minhas e seus sapatos estão todos jogador ao redor da cama. Seus rascunhos já fazem parte dos meus. Dia desses completei um conto que havia começado e nem notou a mudança na caligrafia. Uso suas bermudas largas para dormir no verão e não havia notado o cheiro de perfume masculino no banheiro. Meus livros e os seus estão espalhados na estante e já não sei o que é de quem. Você invadiu meu espaço e eu mal notei quão vazia era a casa sem suas camisas penduradas na cadeira.

Eu luto sozinha uma batalha que você venceu no primeiro olhar demorado. Você tem uma mania cega de me dar aquilo que preciso e não o que quero, e isso me faz querer te empurrar contra a parede entre resmungos e querer fazer tudo pelo seu sorriso. Nossos mundos se colidiram há um par de meses com o intuito de trazer-te até mim uma vez mais, eu só não havia notado os sinais de que a parte que me faltava retornara. Foi tudo tão natural que mal notei seus dedos se encaixando nos meus para não se separarem mais.

Minha mão está fundida junto à porta e sou incapaz de me mexer. Você vai enxergar tudo quando olhar dentro dos meus olhos e isso me dá um medo imenso de te ouvir dizer não, não era isso o que eu quis dizer, não é tudo o que você está vendo. Quase sou capaz de te ouvir bater a porta e nunca mais terei suas bermudas no verão ou seus discos ou seus rascunhos e suas costas para encostar o rosto quando eu canso de lutar contra o sono. Te coloco em todos os meus rascunhos porque meus dedos não me obedecem mais e só te repetem e repetem como uma oração ou chamado ou grito angustiado porque você longe dói em cada célula.

Seu olhar encontra o meu quando a porta é aberta e você vê cada centelha da minha alma. "Aonde você vai?". "Vinho". "Vinho?". "É, vou comprar para você". "Eu não gosto de vinho". "Eu sei". "Está com aquele olhar". "Que olhar?". "Aquele que enxerga até a última atadura dentro do meu peito". "Então você também não quer meus cigarros?". "Não". "Então o que você quer?". Eu quero você. Sou triste e desamparada, mas quero você para enfeitar minhas ruas escuras. O ranger dos dentes não me assustam quando sinto seus braços frouxos sobre a minha cintura. Sou um misto de covardia e esperança que só espera os gritos e as lágrimas. Posso não merecer sequer uma pétala, mas quero você para regar meu jardim.

Você me chama de meu amor e pergunta o que há. Penso naquela do Chico, Nina. Eu não ouso visitar seu país, tão distante. Mas é o que desejo fazer entre uma melancolia e outra, me perder em você para jamais ser encontrada. Meu amor, não me chama de meu amor. Não causa esse arrepio na espinha que me faz querer toda a sua atenção pelo resto da vida. Seja casual e me deixe fugir. Eu não quero fugir mas me deixe fugir. "Se eu não for embora agora, será tarde demais". "Já é tarde demais". Você sempre vence.

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