As luzes da rua irromperam a cortina e desabaram nos meus olhos
cansados. A claridade nas frestas expunha o monstro que habitava meu
quarto. Os sapatos espalhados pelo chão, os livros abertos e grifados
nos trechos que lembram a vida que sonhava ter tomaram todas as mesas da
casa. As paredes brancas tornaram-se cinzas, mas apenas eu a vejo assim
agora. Acredito que até eu tenha me tornado um tanto escura. Sem cor
diante de tanta repugnância. Um ser perdido dentro de si
mesmo.
A jaqueta vermelha que me deu no último aniversário permanece
pendurada na cadeira em que recostava para espiar meus segredos de
escrivaninha, o último resquício de quem eu era. Há dias em que me pego
imaginando se tudo não fora um resultado do excesso de álcool de uma
sexta-feira à noite, em que criei todo um passado colorido e repleto de
flores pelas paredes para não desejar morrer na ressaca da manhã
seguinte.
Então me recordo de você, menino. É tolo chamar-te de menino, eu sei.
É tão homem quanto pode com seu olhar feroz. Um lobo perdido dentro do
ser humano, vagando pelo mundo à procura da alcateia. Eu sempre fui esse
monstro enjaulado tentando adormecer numa tarde qualquer e morrer de
inanição. A minha parte sombria não quer se alimentar desse mundo por
medo de fazer de mim tão asquerosa quanto todo o resto, então prefere a
morte.
Estou exausta, meu bem. Grande parte disso não é sua culpa, ao
contrário do que possa parecer. Fujo de você como o gato foge do cão
porque sei que me despedaçará inteira até encontrar a essência dos meus
pesares e mostrar-me as raízes. Corro para longe, mas preciso de você
como a terra precisa de chuva, as árvores dependendo das águas para
florescerem. Te preservo no lugar mais arejado e bonito do peito,
escondido da maldade que entra pelas frestas. Em verdade, recordo-me de
você para não decidir arrancar as grades da janela e me atirar do sétimo
andar sem olhar para trás. Você é o passado bonito que lembrarei para
morrer sorrindo quando estiver no meu último suspiro.
O mundo me dá asco. Tentei entrar em outra dimensão, procurar um
lugar menos triste para viver. Quis mergulhar nas águas de Galápagos e
me perder no meio do oceano, entre as espécies selvagens como nós dois,
indomáveis. Mas a tristeza estava dentro de mim. A angústia rasgava meus
órgãos e eu não desviava das garras. Eu bebi para vomitar até as
entranhas e exorcizar o monstro que se esconde nas minhas veias porque
ele e o mundo se uniram para me enlouquecer. Dois lados diferentes e
inimigos tentando me cortar até se esvair toda a memória de que já
habitei este quarto sombrio do apartamento 72.
Puxo as cortinas com força para trazer as luzes, torcendo para que
elas penetrem na minha alma e mate toda a doença que o mundo passou
nesses anos de felicidades ilusórias. Hoje a lua está tão bonita, meu
menino. me convidarias para assistir ao espetáculo do amanhecer se
estivesses aqui. Eu trocaria minhas roupas amassadas por um vestido
florido e o seguiria até o parque, o alto do prédio, o fim do mundo. De
todas as ilusões, você é a aquela que eu tornava real propositalmente,
para forçar um sorriso esperançoso.
O desespero me dá pontapés no estômago e eu te chamo
inconscientemente olhando os bares cheios de jovens embriagados e
risonhos, gritando histórias insanas enquanto bebem clandestinamente,
enroscados uns aos outros em seus abraços selvagens de amigos de
botequim. Os invejava abraçando aqueles que são equivalentes ao que você
é para mim, despreocupados e excitados com o agora, como se amanhã não
houvesse a dor de facadas por pensar tão pouco e a secura da garganta e
coração.
A dor deles é a de se entregarem demais ao carpe diem
aprendido nas salas do colegial, levado ao pé da letra por uma juventude
perdida em certezas descartáveis. Minha dor é a dor de não ter ninguém por perto além dos
monstros escondidos em cada sombra da casa. A culpa deles sempre será a
de ter bebido demais na noite passada, gestos repetidos todos os finais
de semana e confraternizações entre desconhecidos unidos pelo desejo de
cometer loucuras.
Minha culpa é andar na contramão, esperando que alguém
cometa a loucura se de aproximar da minha sanidade disfarçada. Tua culpa
é não estar aqui do meu lado para tornar-me mais como um ser humano,
menos como um fantasma que assombra a si mesmo.
Isso pode não lhe fazer sentido algum, meu menino, mas diz tudo.
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