O que há de tão intrigante nos olhos que se devoram em antecipação ao final da noite?
Você morde o lábio distraído enquanto lê um dos livros comprados no início da semana. Eu observo o mexer dos seus pés largados no braço do sofá e me pergunto pela milésima vez, desde que te ouvi no interfone, o que é que te faz rodar a cidade por horas e parar na minha porta todas as vezes. Você diz que minha sala é o melhor sebo da cidade, então vem. Embora saiba que a real motivação bate de encontro às costelas, aceito a resposta para te fazer ficar. Meus braços tremem para te segurar, mas carinho em demasia te leva. Nosso relacionamento vive atirado pelas paredes, pairando nos ares. Não há certezas ou nomeações. Só há um pertencer sem dono, uma necessidade sem razão. Às vezes quem foge sou eu, no temor desse abstrato. Te assusta, eu bem sei, mas eu sempre volto para você.
Eu lhe imploro por respostas e só recebo desvios. Você me prende contra a parede e quem desvia sou eu. Que receio é esse que demonstra entre meu ombro e a clavícula? E qual o meu receito ao dedilhar os músculos da sua barriga? Você mergulha em mim como se quisesse se afogar e logo depois agarra a borda mais próxima. Não decide se quer morrer comigo ou apenas me ver desmanchar nas águas. Eu te empurro e o puxo para perto. Nos afastamos e corremos de volta um para o outro porque não há caminho alternativo senão o dos lençóis. Não temos nada que nos segure, exceto nós. Eu não vivo sem teus poemas no espelho do banheiro e você não vive sem meus ombros para afundar a cabeça e morrer para o mundo que existe além das janelas. Você é o mesmo trecho que releio antes de dormir e eu sou a bossa nova que escuta antes de fechar os olhos. As canções não dizem seu nome mas o deixa subentendido em cada frase que cita doçura. És doce e amargo, e por isso eu quis te matar dentro de mim. Era preciso fugir antes que fosse tarde, meu amor, mas você entrou pela porta antes que eu conseguisse trancá-la e agora estamos presos. Nunca sei se peço para partir ou se amarro teus pulsos à cama e não o liberto antes de jurar ficar até o fim dos tempos.
Não ousamos dizer nada, apenas permanecemos. Não conseguimos ou queremos partir. Não há mordidas melhores que as tuas no meu ombro ao dizer bom dia e nem arranhões melhores que os meus nas tuas costas. Tu me pegou pelos braços, me marcou a alma, degustou cada pedaço de pele e tornou-me incapaz de desejar outros braços quando o sol se põe. É por isso que tu sempre esfrega os pés no tapete de entrada e eu apareço ensopada na tua porta toda noite chuvosa. Eu pergunto porque vens e recebo uma resposta debochada. Você pergunta porque vou e digo que quero fugir da solidão. Fingimos o desapego para ocultar o que se esconde atrás dos olhares, meu bem. Sentimos no rasgo, na cicatriz e na tristeza. Felizes somos em compartilhar a tristeza. Expulso teus temores enquanto limpa meus olhos vermelhos. Protejo teu coração em cada afago e salvas o meu em cada palavra. Meu coração é teu e você sabe, tens com ele cuidado perene. O sentir dispensa compreensão. Amor, desejo, adoração, necessidade ou desespero. Tão grande é que fica sem nome, perdido entre as folhas do dicionário. Temos dentro de nós o desejo da carne com a ternura do peito, um se escondendo no outro. Entre gritos e sussurros, sempre há um de nós batendo à porta.
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