Você está com aquele olhar que confunde minha alma. Me encolho, mas continuo. Cruza os braços e sorri divertido, sua expressão me recordando aquela vez em que duvidou de que eu seria capaz de comer mais pedaços de pizza do que você. E eu, mais uma vez, aceitei o desafio. Ficamos em silêncio, um de frente para o outro. Bate a ponta do sapato velho no chão, clássico sinal de sua impaciência, enquanto brinco com o pingente, incapaz de prosseguir te olhando nos olhos. Porque sei que se o fizer, desistirei. É bem verdade, quando o assunto gira em torno de teu nome, me contento com restos, raspas, até mesmo alguns arranhões. Mas teu olhar dos finais de tarde me tira a força. Ele, que tanto me enchia de esperanças hoje é dono de minhas angústias. Você, que me enchia de carinho, hoje banha-me com medo. Mordo os lábios para reprimir a vontade de perguntar aonde foi que nos perdemos, se foi na curva do rio que passamos ou no alto da colina em que demos as mãos. Apenas recordo de não receber seu sorriso quando passamos por aquela ponte de madeira entre o sonho e a realidade. Você me olha sério. E eu, covarde demais para mirar-te nos olhos, foco a atenção em sua barba por fazer e sorrio sozinha. Eu queria te pedir para não ir embora. Eu queria te pedir para não me deixar ir embora. Eu queria dizer tantas coisas dessas que você não espera ouvir e tanto quero dizer, que todas as palavras ficam presas em minha garganta e sou capaz apenas de permanecer em silêncio te esperando adivinhar tudo de alguma forma mágica. Te dizia tanto com os olhos que as palavras tropeçavam umas nas outras e não passavam de olhos apertados e confusos. Queria que me dissesse para andarmos juntos na próxima chuva, um sinal de que não desapareceria antes que pudesse reconquistar esse seu sorriso que mais parece o símbolo do sarcasmo. Traçamos um caminho cheio de curvas íngremes e neblina capaz de fazer-nos cegos, mas com você ao meu lado não havia o medo de cair em algum buraco na mata ou tropeçar nas raízes das árvores. Com você ao meu lado eu não sentia vontade de desistir todas as noites e correr como uma criança assustada de volta ao começo por medo do que me espera no final. Agora, aqui estamos ocupando um cômodo com os olhos cravados no meio do nada e o peito quieto como se tivessem nos privado o direito de respirar. E há tanto à ser dito. Tanto a ser ouvido. Já que as vozes se acovardaram em nossas gargantas, que os olhos digam tudo e um pouco mais. Mas não consigo olhar-te nos olhos. Não consigo pois temo o que verei. Utilizo então o silêncio, e o peço para enviar-lhe que meus sinais vitais já falham e o pranto bate à porta. Não sei bem quanto durou aquela compreensão silenciosa - pareceram-se meses para mim, mas não passaram de minutos. Caminhei para a porta, dizendo banalidades para não perguntar se o veria de novo. Comentei que sua barba arranhava minha pele. Enquanto a porta se fechava, ouvi seu sussurro leve de que a faria antes de encontrar-me na manhã seguinte. Aquilo, para mim, havia sido uma promessa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário