sábado, 23 de março de 2013

De cada Dia

Não te enxergar no alto da colina causa pesadelos infantis em que um terrível monstro de capa negra vem me raptar no meio da noite. As luzes permaneciam acessa até o raiar do dia para manter os sonhos bonitos presentes. Escrevia que os poemas se perderam entre as dobras dos suicidas. Vivemos sobre os destroços de um mundo irreconhecível que só é lembrado em fábulas. Eu sinto gosto de sangue nos lábios e temo adormecer para nunca mais abrir os olhos. Essa histeria me adoece a ponto de morder a manga da camisa no delírio da febre. Pois que era te aguardar por um par de dias que essa insanidade me prensava na parede fria da cozinha. E ficava ali, as lágrimas e o corpo presos por uma força invisível que me impedia de correr, os dedos escorregando no liso do azulejo com detalhes em azul que escolhemos por lembrar doçuras planejadas na grama. Me sentia num constante filme de terror em que corria com meu pijama de flanela por toda extensão da casa pedindo uma ajuda que não viria. Eu, que era tão inconstante, tornava-me um animal acoado na ausência. Não ousei contar meus delírios porque você, preocupado que era, não teria um segundo de sossego, e teimoso que era, não o daria também à mim. Me aconselharam a fumar para engolir a ansiedade, mas só consegui uma baita crise de tosse. Então disseram para beber, e os próximos dias foram de uma tonteira e ressaca terríveis. No último dia, temi não conseguir mais abrir os olhos, doía-me tanto enxergar a luz que só via vultos. Tu bebias e ficava risonho e falante. Beber só me rendeu impropérios. Aderi aos calmantes. Uma pílula só e você dorme feito um anjo, dissera o farmacêutico. Me vieram logo com um tarja preta, que é pra sossegar até o meio-dia. Até que funcionou direito, nas suas limitações. É uma pena que a dose não venha com seu peito pr’eu fazer de travesseiro, nem sua respiração fraca na minha nuca. Eu até gostaria de sentir sua pele debaixo dos meus dedos, e ficar descendo e subindo as mãos nas suas costas pra aquietar seu jeito afobado. Até o travesseiro, tanta discórdia porque um sempre tinha mais espaço que o outro, já virou banalidade. Daria o travesseiro todo se você quisesse, só pra encostar a cabeça no lado esquerdo da tua costela e ouvir a taquicardia que te dou sem fazer nada. Lá pra segunda semana de medicamento, descobri que pensar no peso das suas pernas nas minhas é melhor que me dopar de tanta pílula. E então recordar da marca dos teus dedos nos meus livros mais bonitos, e sua loucura de me fazer tomar café só pra assistir a dança das cores no céu quando a noite volta a ser aprisionada do outro lado desse mundo. Quem diria do arrepio gostoso que dá no peito quando sussurras as falas dos filmes no ouvido. Fixo o olhar nas pedras da calçada até enxergar a ponta do seu sapato colada na minha sandália e sentir seu cheiro impregnar meus pulmões. Ouço um blues enquanto me espreguiço e te sinto bater os dedos no ritmo da música. Nosso encontro vai muito além do espaço físico. Só notei teus afagos silenciosos quando já não era possível estancar o sangue que esvaía do peito. Dizias aquieta, aquieta menina que estou em cada verso e curva que você dá nessa casa cheia de nós. Nossos nós viraram laços que amarrei no candelabro pra lembrar do teu alento que me acarinha enquanto a ausência está longe de terminar. Os pesadelos já não são constantes e os azulejos já não são carcereiros. Os olhos perdidos dos teus ainda causam um latejar nas têmporas à cada pôr-do-sol. Eles aguardam ansiosamente mergulhar no castanho que se esconde nos cílios. Pedi para as nuvens te avisarem para recordar meus caracóis no seu rosto quando for dormir, e te cuida como se minhas mãos estivessem afagando teu cabelo cor de breu, que você é meu calmante de cada dia. 

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