Não disserto sobre as palavras frias que me causam calafrio. Nego para expurgar o gelo que toca a pele quente até que queimá-la como se fosse fogo. As paredes bem sabem a hipocrisia de cada passo despreocupado dado nas ruas de pedra. Caminho e faço meia dúzia de pedidos e ladainhas que não sei para onde vão ou de que parte me vem. Eu me perco em cada hora de solidão e transformo os tropeços em passos de dança. O teatro apenas começa quando a noite cai. As ruas tornam-se verdadeiros carnavais fora de época e sem previsão de término. Há quem veja sinais de embriaguez em minhas olheiras. Meus olhos estão constantemente fechados, ora ou outra isso ocasiona reprimendas desconhecidas e ignoradas. Eu te procuro em cada rua, e ao passar um par de horas, meus olhos cansados desistem e vão se fechando até que eu volte para casa, para então decidirem não se fecharem até amanhecer. Vez ou outra sou capaz de sentar na calçada e respirar fundo. Meus olhos te procuram em cada rosto e não te ver me dá vontade de parar no primeiro bar e me exterminar no álcool. Apenas você entende a insônia da espera, aquela que faz impossível desligar-se completamente por medo da campainha não ser ouvida. Tenho lá minhas insanidades e ansiedades. Tu entende todas. Entre tantas voltas, é sempre o seu olhar que meu cérebro procura reconhecer ao fitar desconhecidos.
Pedia em silêncio vem, vem e fica, fica mais, fica para sempre porque sozinha eu não consigo. Te enxergava do outro lado do vidro como uma criança olha as nuvens no céu, num misto de incompreensão e admiração, colava as mãos no vidro como se fosse capaz de quebrá-lo para encontrar o quente dos seus ombros nas palmas. Sentia ansiedade semelhante à de conhecer um lugar novo, contrastando ao aconchego de voltar para casa. Mas eu só te olhava com os olhos de quem não quer nada e fumava mais um maço. Tu me perguntava o que há e só ouvia respostas monossilábicas. Eu te procuro e quando encontro não quero que saiba do desespero contido na ausência. Pensar em tua partida aos poucos, um adeus sem carta, faz de mim um monstro orgulhoso incapaz de transmitir o estado deplorável oculto atrás do jornal lido no café. Tá tudo bem, eu dizia olhando para os lados como se procurasse qualquer coisa mais interessante do que seus olhos sacanas. Tua cara está cheia de promessas e é difícil fugir dos instintos que tuas mãos despertam. Eu me entrego e finjo que estou de passagem. Guardei o coração no bolso da sua jaqueta favorita e torci para que não o notasse até que fosse à lavanderia e eu estivesse trancada no quarto, o mais longe possível dos teus olhos que sabem tudo o que teimo em ocultar. Escrevi um par de palavras desconexas, como o fato de morrer por te amar e ainda assim preferir isso à vida, e o desejo de me perder com você num vinhedo na Itália ou me fazer de dama inocente numa cafeteria na Espanha, ou em qualquer lugar que tu quisesse me levar, nem que fosse para sentarmos às três da tarde naquele terreno baldio no meio do bairro e ficarmos nos olhando enquanto eu levo suas mãos de um lado para o outro, até que perguntem o que raios fazemos ali (eles não entendem, meu bem, eles nunca entenderão). Era preciso ter você por perto, mesmo que seja apenas para ficar olhando, olhando e olhando, como se o mundo ficasse mais silencioso em respeito ao encontro dos nossos olhos cansados. Aquele bilhete infantil foi a forma mais bonita de contar que é mentira, é tudo mentira esse pudor que me impede de arrancar a roupa com as luzes acesas e te deixar me ver inteira, porque apesar de tão esnobe e casual, eu preciso que você conheça cada pinta escondida sob o meu vestido. Veja através daquilo que oculto por zombaria ou vaidade. Enxergue através dos gestos que eu não consigo sem você. Essa é a coisa mais vulnerável que uma pessoa é capaz de dizer para a outra: eu não consigo sem você. Eu dizia cada vez que fechava a porta do quarto e o deixava a sós com teus delírios poéticos porque tu não sabe dialogar e criar ao mesmo tempo, eu te dizia quando marcava de caneta vermelha fotografias que me lembravam nós dois e te mostrava sabendo que recordaria quando fosse escrever algum conto. Falei abertamente enquanto cantávamos aquela do Chico. Eu quero ser tua Cecília, sussurrei pausadamente enquanto já adormecia para seu subconsciente absorver cada palavra como a maior declaração que minha falta de palavras pode dar. Você foi uma lareira acesa dentro do meu peito gelado e isso eu não posso esquecer. O transbordar mais importante fica guardado em algum canto perdido nos abismos. Vejo o amor como um segredo bonito. Te manter em silêncio é a forma mais bonita de dizer que eu te quero tanto que não ouso te dividir com o mundo lá fora. Eles não merecem sequer a dor contida nos teus parágrafos. Eu nos protejo dos pecados inconscientes que os seres humanos praticam. O mundo não merece tua inocência, meu bem. Nos ferimos suficientemente pelo excesso de zelo, para ousarmos permitir ao mundo apodrecer nossos alicerces. Somos docemente doídos, com as contrariedades que as palavras trazem quando unidas. Descarto os remendos porque eles estão presentes em cada membro e dispensam formalidades. Doer sempre fora uma das palavras principais do vocabulário, exatamente como sentir. Sentimos como se sentir fosse uma doença congênita, e talvez realmente seja. Até agora não encontrei enciclopédia capaz de nomear o que somos. Talvez sejamos exceção. Talvez sejamos tão banais que dispensa qualquer tentativa de explicação, são encontrados clones em cada esquina e o que conhecemos não precisa ser estudado (ou é exatamente por isso que precisa?). Solidão a dois nunca fez sentido até te conhecer. Agora, quem já não faz o menor sentido sou eu.
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